Guilherme Scalzilli

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A torcida global

Todo “novo calendário” do futebol nacional é transitório, oportunista, armado sem debates ou critérios e conserva falhas elementares de cronograma, inchaço, estrutura arcaica e desrespeito ao público. Portanto, o recém-anunciado plano de torneios não surpreende.
Há apenas oito anos, o número de participantes do Campeonato Brasileiro quase dobrou, para içar o Grêmio (Fábio Koff) da segundona. Quatro clubes tiveram esse privilégio na inesquecível Copa João Havelange, vencida pelo Vasco (Eurico Miranda) num escândalo de impunidade. Se melhorar, estraga.

Assim prevalecem os chamados “grandes”, que sonegam impostos, usam áreas públicas de graça, manipulam tribunais desportivos ilegítimos e avalizam embustes diversos. Disfarçados nesse ridículo Clube dos 13, o gerente da bagunça, só mantêm contas e reputações se impedem forças regionais de manchar os certames com surpresas incômodas.

Times do interior, úteis à dinâmica do esquema, fornecem revelações a preço de banana (lucro!) e mobilizam público numeroso. Desmantelados e sem recursos, sujeitam-se a regras extravagantes (tipo capacidade do estádio ditar mando de jogo), a arbitragens safadas e à fugacidade de eventuais conquistas.

No futebol, entre submissos e corruptos há uma tênue membrana de esperteza. Mas os dirigentes locais corroboram a própria extinção. Perniciosos “calendários”, paridos em conluio com a televisão e seus anunciantes, contribuem para mediocrizar a torcida em convenientes categorias de audiência.

Há tempos se prepara o mercado, como fazem publicitários com novas marcas de sabão, realizando partidas importantes em cafundós injustificáveis. A crônica alimenta paixões artificiais para ocupar as lacunas da quebradeira, respaldando tradições forjadas a coice. Qualquer seleção parece inevitável, pois acreditamos que os melhores jogadores brasileiros atuam em apenas meia dúzia de clubes.

Os consumidores, digo, as torcidas logo trocarão os times de suas cidades por essa discutível “elite”. Com a diversidade fora de moda, também o futebol se resumirá a certas marcas atraentes, comandadas por supercartolas e deputados-de-clube. Na Europa, dono de time é também dono de emissora e vira primeiro-ministro. Estamos fadados, é moderno.

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