Dois comentários sobre o terror

Mesmo quando atingida por atrocidades lastimáveis, a opinião pública ocidental evita discutir a absurda covardia dos ataques a civis de qualquer nacionalidade. Impera uma sórdida omissão perante as vítimas alheias, confundindo solidariedade com ignorância, como se um debate sério só fizesse amenizar ou justificar a catástrofe dos ricos.

Os EUA usaram Saddam Hussein e suas armas químicas na brutal guerra de 1980-88 contra o aiatolá Khomeini; financiaram mercenários na Nicarágua, em Angola e em toda a Ásia, inclusive Osama bin Laden e o nefasto Taleban; tiveram obscuro papel nos horrores do Burundi, de Ruanda, do antigo Zaire e do Sudão; legitimaram dezenas de ditaduras desde os anos 70, acatando o recente assassinato de Moshood Abiola, eleito para suceder o general nigeriano Abubakar; atacaram inocentes no Vietnã, em Granada (1983), na Líbia (1986), no Panamá (1989) e no Iraque (desde 1991). Um terço da população mundial vive sob embargo americano, estratégia que fortalece governos totalitários e extremistas, com danos inimagináveis às populações: desemprego, prostituição e miséria generalizados, infra-estrutura destruída, falta de comida e remédios.

Esse retrospecto simplista apenas sugere que jamais conheceremos a verdade sobre o terrorismo. As investigações são controladas por instituições cuja ineficácia chegou ao limite - um imenso poderio bélico e tecnológico permitiu transações financeiras, reuniões e contatos por telefone e Internet para organizar atentados que foram de Dar Es-Salaam, na Tanzânia, ao coração do capitalismo em apenas três anos.

Imprensa, governos e contribuintes precisam de soluções rápidas e plausíveis. Se o FBI obstruiu o acesso público às investigações do atentado em Oklahoma, podemos imaginar como agiu ao ser desmoralizado por alguns fanáticos usando estiletes. Infelizmente, a “guerra contra o terrorismo” é uma vaga resposta ao medo, associando-o à riquíssima cultura islâmica, que abarca 25% da Humanidade. Oportunidade para a Otan bombardear regiões inóspitas e miseráveis, ônibus, trens, colunas de refugiados, creches e hospitais.

A polaridade entre anti e pró-americanos, que já municia o patrulhamento besta, logo será usada para justificar ações na América Latina. Talvez então enfrentemos os fatos sem a máscara da cumplicidade servil.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos