Guilherme Scalzilli

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Fazendo uma vaquinha

Quando funcionários do FMI se reúnem com autoridades brasileiras, um enorme aparato midiático distribui a imagem austera do grande capital que fiscaliza, ameaça e negocia duro. Afinal, o mercado precisa de garantias, não somos confiáveis e estamos no mundo a convite.

Mas, se a coisa é tão séria, por que o novo pacote de US$ 15 bilhões saiu em apenas nove dias de cafezinho?

Essa turma sabe o que faz. Arrumou um empréstimo insuficiente que, como o anterior (US$ 41 bilhões), explodirá no colo de governos futuros. Também o inevitável quadro recessivo fica adiado para depois do ano eleitoral. O paliativo é conveniente porque gera investimentos em campanhas e redutos da falaz coalizão governista, que empunhará uma ilusória segurança financeira (“apesar da Argentina!”) contra o perigo vermelho.

Aos trabalhadores, a conta. Reféns de eventualidades sobre as quais não temos qualquer controle, sacrificamo-nos por um dinheiro comprometido, que mal veremos, sem jamais poder ressarci-lo, proibidos de superar nossa quota aceitável de bem estar social.
Milhões de pessoas, à beira da miséria ou nela imersos, lutam com grotesca dignidade para manter um nível de vida escabroso sob qualquer padrão civilizado; mas se investimos em educação, saúde, cultura e pesquisa os carreiristas estadunidenses ficam bravos, pois a grana é deles e ninguém mandou ser ralé.

Então cortamos gastos urgentes e fundamentais. Aumentamos impostos, CPMF, taxas de juros, inflação. Fazemos concessões humilhantes em diversos setores do comércio internacional, sem que os países desenvolvidos abrandem um absurdo protecionismo agrícola que chega a US$ 1 bilhão por dia. Submetemo-nos a índices de confiabilidade inventados pelos próprios credores, que enfraquecem nossas instituições para gerir a tradicional “house of mother Johanna” da especulação. E, claro, rifamos umas estatais interessantes no exclusivo sistema pague-em-moeda-podre.

É o preço do crescimento, dizem. Pois sejamos miseráveis enquanto durar esse pacto imundo com as forças das trevas. Os patrões sibilam paranóias cobiçosas em reuniões secretas e engolimos o veneno mais revoltante da submissão, que é a crença na sua inevitabilidade.

Às vezes parece que jogar torta de morango na cara dessa gente é muito, muito pouco.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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