Guilherme Scalzilli

Início

Blog

Biografia

Livros

Artigos

Ensaio

Mídia

Inéditos

Vídeo

Contato

A absolvição do tucanato

No vidro do carro, um adesivo pergunta “e agora, Lula?” O significado imediato dessa provocação é bastante claro e até justificado, pois as perspectivas são nebulosas e a expectativa, imensa. Nas entrelinhas, porém, se encontram duas idéias muito perigosas: a) o eleito não está à altura do cargo e b) fracassará, mesmo que se esforce, pois o país é irrecuperável. A primeira premissa se basta pela idiotice; a outra escancara um fatalismo que não tem nada de ingênuo, pois serve para justificar a promiscuidade dos que se afastam do poder, prontos para virar sabotadores risonhos.

A falácia de que o Brasil é uma causa perdida vem sendo alimentada pelos mesmos sabichões que propagam os pretensos “avanços de FHC”. A intenção é obscurecer o retumbante fracasso do projeto administrativo encabeçado pela coligação de centro-direita que comandou o país por uma década. E a melhor maneira de atingir tal objetivo é embaralhar qualquer avaliação rigorosa do governo que termina, contaminando-a com o cinismo e a complacência do jornalismo puxa-saco.

O que se esconde por trás da expressão “o eleitor não soube avaliar as conquistas do governo” é de um ranço autoritário inaceitável. Significa dizer que o povo é inepto para encaminhar a vida pública, como se um grupelho de sebosos engravatados fosse mais capaz de entender as necessidades deste país continental do que o cidadão que nele trabalha, padece e morre. Típica artimanha do pensamento único, que sobrevive de tolher qualquer questionamento sério, tachando-o como urucubaca de gente ultrapassada e ideológica.

Mas, cacilda, de que “conquistas” estão falando? O Brasil pós-FHC abriga 50 milhões de miseráveis (29,3% da população), com a 4a pior distribuição de renda do mundo: os 10% mais pobres possuem 1% e os 10% mais ricos 46,7% da renda do país. Só Suazilândia, Nicarágua e África do Sul conseguem ser mais desiguais. É pior do que a Bolívia e o Zimbábue, por exemplo. Se considerarmos que esse quadro vem de longe, o que não é toda a verdade, poderíamos enumerar as derrocadas inegáveis, como o nível inédito de desemprego, o congelamento dos salários, a carga tributária pornográfica (que destruiu pequenas e médias empresas), o câmbio sobrevalorizado - tirou a competitividade da indústria, abrindo caminho para multinacionais dominarem o mercado em privatizações recheadas de safadeza - e os juros reais mais caros do mundo, uma insanidade que inviabilizou o crescimento local.

Tucaninhos felizes se vangloriam de uma pretensa “estabilidade”, sem deixar claro onde ela se esconde. A ilusão monetária está em ruínas, com a moeda valendo um quarto do que valia no início do Plano Real. A inflação, vejam só, atingiu o dobro do esperado, com reajustes enormes guardados para os próximos meses (o dos medicamentos é para início de janeiro). As instituições foram envenenadas pela corrupção, bastando lembrar Sudam, DNER, Fundef, emenda da reeleição, BNDES, Sivam, Sudene, FUST, Previ, TRT, FAT, e tantos outros casos cuja impunidade foi garantida pelo Engavetador-Geral da União. Sem contar a crise energética e o risco de apagão, que nos transformaram em piada internacional.

Depois de esculhambar a administração federal e de tomar uma surra nas urnas, é muito cômodo ser pessimista em relação ao futuro e adocicado na avaliação da bandalheira recente. Assim até eu. Agora que se pode evitar os deslizes do oportunismo eleitoral e que os reservatórios estão prestes a expelir enxurradas de ônus alheios, o próximo governo precisa esclarecer em que situação está encontrando o país, exibindo esqueletos e armadilhas, mas principalmente denunciando os responsáveis por tamanha destruição. Enquanto ainda é possível apanhá-los.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Caros Amigos
Revista Caros Amigos