Guilherme Scalzilli

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A política do crime

Inútil especular sobre a verdadeira motivação dos assassinatos de Antônio da Costa Santos e Celso Daniel. As próprias investigações perderam credibilidade após destruição de provas, chacina de suspeitos, confissões fajutas e outras cabeçadas.

Dizem que o governo federal preferiria adotar uma abordagem política, poupando a calamitosa violência urbana que indigna a população. Mentira. As ações governamentais, desde os primeiros momentos, exibiram uma flagrante tentativa de forjar crimes “comuns”, despolitizando-os a todo custo. As versões oficiais (apaziguadoras, por incrível que pareça) oscilam entre bandoleiros sanguinários, fanatismo troglodita e engano bizarro.

Fossem suas as irreparáveis perdas, PSDB e PFL imediatamente abraçariam o papel de vítima, hoje negado ao PT, e acusariam qualquer grupo obscuro de conturbar a transição democrática. Talvez até aparecessem umas camisetas no cativeiro. Mas, quando se extermina lideranças do maior partido de oposição a meses das eleições nacionais, para as autoridades ocorreu uma espécie de coincidência infeliz, mergulhada na abstração estatística das tragédias contemporâneas, pobres de nós.

A omissão pouco tem a ver com o resultado dos inquéritos e, embora seja sintomática nos casos atuais, não se resume a vítimas petistas. É típica de um enfoque rasteiro dado à criminalidade, calcado nessa falácia de que ocorrências “corriqueiras” não possuem, por definição, propulsores de ordem sócio-política. Desde que a simplificação pareça conveniente, invasões de terra, policiais corruptos, seqüestros de famosos e o Comando Vermelho representam o mesmo banditismo onipresente. Portanto, o fuzilamento de alcaides, “comum”, não merece enfoque privilegiado.

O desvio de responsabilidades virou estratégia eleitoral. Oculta-se até em campanhas publicitárias bem-intencionadas, que ora nos relegam à condição de vítimas passivas, pedindo trégua a inimigos invisíveis, ora acusam o cidadão (o lesado) de produzir dengue, poluição, crianças famintas e asilos podres.

Desmoralizados os meios institucionais para lidar com as mais primárias adversidades, unamo-nos acima das diferenças. Somos todos bons, já que os maus se escondem no vazio pernicioso onde o Estado não chega. Então clamemos por “justiça”, para que, algum dia, esta palavra ganhe sentido.

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