A sombra
As jovens democracias sul-americanas não foram capazes de transformar o modelo econômico excludente que castiga uma generosa maioria de desvalidos, mesmo onde ocorreram aparentes inovações políticas, às vezes com apoio de forças progressistas.
A comemorada vitória do socialista chileno Ricardo Lagos só foi possível graças à Concertación, ampla coligação de centro que governa o país há doze anos. O Peru ficou livre do escandaloso Alberto Fujimori, mas a eleição de Alejandro Toledo não significou a ruptura esperada. O mesmo se pode dizer de Gustavo Noboa, presidente do Equador após a queda de Jamil Mahuad (o dolarizador maluco), num levante que usou e depois traiu as lideranças indígenas. O Uruguai amarga o quarto ano de recessão, com marchas periódicas que reúnem milhares de pessoas.
Mas o problema mais sensível continua sendo a proverbial fragilidade institucional, alimentada por um desconforto isolacionista histérico e beligerante que fragiliza qualquer reforma social.
O Paraguai tem ex-presidente acusado de assassinar seu vice, em conluio com militares da pior estirpe. Andrés Pastrana deixará a Colômbia dilacerada pela guerra civil, com a soberania correndo riscos, e a eleição do favorito direitista Alvaro Uribe promete um futuro ainda mais tenebroso. O colapso da Argentina, previsível após um longo processo de submissão ao capital financeiro, explodiu nas reformas neoliberais do corrupto Carlos Menem. De la Rúa venceu o menemista Eduardo Duhalde, mas o peronismo retornou por voto indireto, em plena balbúrdia, até nova ordem. A “revolução bolivariana” do coronel Hugo Chávez enfrentou Igreja, empresários e meios de comunicação; quando mexeu no sacrossanto petróleo, em tempo de guerra, o Estado de Direito balançou.
Como não há tragédias casuais, lembremos que Salinas, Collor, Fujimori, Cubas, Cavallo e outros arquitetos da instabilidade receberam o apoio caloroso dos Estados Unidos - que alegam respaldar decisões populares mas não relutam em destruir caudilhos indóceis. Nem sempre dá certo. Passaram vergonha na recente fanfarronice contra Chávez, depois de receber oficiais golpistas no mesmo Fort Benning (Geórgia) que instruiu militares brasileiros em 1964.
Pior para nós, eleitores, pois é de orgulhos feridos que se alimenta o espectro da ingerência norte-americana.