A vida fácil do bom tucano

A candidatura de José Serra foi totalmente reformulada quando Nizan Guanaes, César Maia e outros assumiram o controle para salvá-la do fracasso. Passou então a prevalecer a estratégia da campanha negativa contra Lula, baseada na sua desqualificação pessoal e na paranóia da “catástrofe iminente” que ronda o país. Acertados os detalhes da nova linha de atuação, adveio uma estranha coincidência: os grandes veículos de comunicação imediatamente adotaram um enfoque agressivo contra as administrações petistas.

Poucos perceberam, entretanto, as conseqüências dessa manobra a nível estadual. Ao mesmo tempo em que ataca o “PT no poder”, o noticiário exibe um orgulhoso silêncio acerca de escândalos notórios envolvendo certos governadores que buscam a reeleição. O exemplo paulista é rico nesse tipo de indulto.

São Paulo vive um caos educacional permanente: salários e infra-estrutura miseráveis, projetos pedagógicos imbecilizantes, fundações recheadas de contratações irregulares. As obras do eleitoreiro “Rouboanel” apresentam falhas nos editais, desapropriações supervalorizadas, reajustes inexplicáveis e ilegais. Os pedágios pululam nas rodovias, com tarifas absurdas e arbitrárias, apesar do pesado imposto já cobrado; não há transparência sobre o destino das imensas fortunas arrecadadas pelas concessionárias; a proteção dos pedestres é ignorada e o usuário é impedido de optar por caminhos alternativos (“rotas de fuga”, para os usurpadores). A segurança pública atingiu o grau da anedota, graças à corrupção institucional generalizada, que permite fugas de criminosos às centenas, e à impunidade de servidores envolvidos no tráfico, em homicídios, torturas, extorsões.

O rol de citações poderia atingir calhamaços, mas seria inútil. Muitas circunstâncias favoráveis conduzem Geraldo Alckmin à reeleição. A principal delas é convenientemente polarizar com o sacripanta-mor Paulo Maluf, maciçamente rejeitado, o adversário ideal para qualquer segundo turno. Outro benefício do governador advém do legado político de Mário Covas, cujo falecimento aglutinou a comoção geral. Protegido por tantas couraças, soa até desrespeitoso contestar o bom tucano.

Ademais, a máquina administrativa a serviço de Alckmin (que não se licenciou para concorrer) é invejável. Estão agendadas cerca de 1500 inaugurações neste ano eleitoral, desde cano de esgoto até sinalização de hidrovia, passando por restaurantes, pontes e escolas. Pouco importa se tais melhorias foram mesmo realizadas e em quais condições. O fato é que o governador-candidato estará presente, posando de trabalhador incansável, arauto do desenvolvimento, com o apoio do PFL de Romeu Tuma. Sorrateiramente, vai garantindo um confortável embate final com o príncipe das trevas, quando enfim a omissão jornalística despertará - mas desta vez para a urgência do voto útil, em nome da moralidade.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos