Campo minado
Basta um olhar superficial sobre os quase cento e treze anos de aventura republicana – uma sucessão de golpes, sublevações, violências e fraudes de toda estirpe – para entendermos o significado histórico de uma possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e o horror que ela provoca em certos níveis de interesse. Parece mesmo algo impensável, quase acintoso à inteligência, se levarmos em conta o grau de arbitrariedade com que nossos desígnios sempre foram tratados. A apreensão se acentua quando sabemos que estão em jogo as principais estruturas políticas do país, com uma abrangência inédita, às vésperas de eleições nacionais também na convulsionada Argentina.
Vacinados que somos, não temos por que acreditar em “normalidade democrática” sob tais condições. Nenhum arroubo de ingenuidade sufragista pode nos convencer de que há lisura quando os grandes veículos de comunicação e os maiores capitais privados, locais e estrangeiros, se posicionam escancaradamente contra determinada candidatura, imputando-lhe a responsabilidade pelo colapso econômico iminente.
Imersos no calor das campanhas, fingimos ignorar que o voto eletrônico multiplica e incrementa as possibilidades de fraude. Sob críticas da ONU, nosso sistema foi analisado por dezenas de países, mas adotado apenas pelo estável e próspero Paraguai. A Agência Brasileira de Inteligência (oriunda do SNI ditatorial) possui total e exclusivo controle sobre o programa que registra a apuração parcial dos votos, ocorrida ainda no interior da urna. É tecnicamente primário adulterar um programa inauditável, tornando impossível evitar a fraude e dificílimo detectá-la depois. Devemos acatar o que diz a máquina, pois não existe voto impresso para conferência nem possibilidade de recontagem.
Já que estamos fadados a essa esdrúxula modernidade, restaria esperar que as pesquisas coibissem surpresas desagradáveis. Só que os próprios institutos têm simpatias políticas evidentes, às vezes assumidas. Com algumas concessões envolvendo metodologias e margens de erro, pode-se induzir o eleitor a acreditar em reviravoltas, influindo na “expectativa de vitória” (um dos maiores incentivos eleitorais do brasileiro) e gerando votos úteis ou de protesto ao sabor das necessidades regionais. E quem exerce controle sobre os institutos? O confiável TSE.
Mas calma lá. O fato de nos descobrirmos expostos às mais variadas manipulações não significa que o exercício do voto seja dispensável ou necessariamente viciado. Isso é idéia de gente mal-intencionada. O mesmo serve para aqueles que qualificam de paranóia conspiratória qualquer dúvida que a sensatez levante contra cidadãos que jamais se caracterizaram pela transparente defesa das instituições e dos anseios populares.
Constatar as fragilidades do escrutínio pode nos garantir subsídios para exercê-lo, demarcando as armadilhas nesse terreno desconhecido que ainda ousamos transpor (com esperança, mas principalmente cautela).