Guilherme Scalzilli

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O outro em gestação

O Partido dos Trabalhadores demorou três mandatos alheios para descobrir que militância e boas intenções não bastam para se eleger um presidente da República. Foi necessário vencer fartas escaramuças internas e sacrificar antigas teimosias para chegar a 2002 com chances reais de êxito: um marqueteiro sabido, que não se envergonha de jogar o jogo, estratégia de alianças, discurso moderado, propaganda eficaz, etc. Os adversários, que sempre viram Lula como figurante de segundo turno, não se preocuparam com sua ascensão nas pesquisas e trataram de disputar a outra vaga - afinal, pensavam, o “anti” ganhará de qualquer forma.

Poupado de ataques, Lula consolidou uma liderança folgada. As campanhas de José Serra e Ciro Gomes, polarizadas na disputa pelo segundo lugar, conheceram o dilema da destruição mútua, como dois náufragos que se debatem pela mesma bóia, inviabilizando alianças futuras. Estrategistas alarmados correram ao Planalto: era imprescindível atingir as administrações petistas. E assim foi feito, com a ávida colaboração da mídia, mas tomando o cuidado de não identificar os autores das agressões, originando-as no lodaçal obscuro da espionagem.

Segundo pessoas que transitam nas catacumbas políticas, montou-se uma estrutura anti-Lula sem precedentes, paralela ao governo e aos partidos, mas não dissociada dos quadros administrativos que garantem seu funcionamento, misturando servidores e criminosos. Aparentemente, o elo institucional do esquema é a Polícia Federal, que já foi subordinada a Aloysio Ferreira e Nelson Jobim, e que cedeu um delegado para assessorar o então ministro Serra, que por sua vez contratou os serviços de escuta clandestina de um ex-diretor do SNI.

Quando lembramos que a PF investigou Lula por um ano e meio, período no qual foram gastos mais de R$ 5 milhões com “serviços de caráter secreto e reservado”, que não podem ser verificados nem pelo Congresso, temos uma vaga noção do tamanho desse aparato. Entretanto, mesmo abrigando diversas afinidades, tal estrutura tem objetivos que independem de colorações ideológicas. Favorecerá apenas aquele que apresentar melhores condições de vencer o segundo turno.

O problema é chegar ao nome ideal. A candidatura Serra “Irrita” conta com as maiores empresas, forças regionais do PMDB e o aporte da máquina governamental; tem performances sofríveis e inimigos por todo lado (inclusive no PSDB), mas um imenso tempo na TV. Ciro arrecadou o apoio dos Bornhausen, dos Sarney, de ACM e dos Jereissati, o que significa muito dinheiro e veículos de comunicação em todo o Nordeste; é ótimo orador, mas desconhecido e imprevisível. O tucano resistiria a um dossiê escancarando as atividades de Ricardo Sérgio? Ciro saberá lidar com seu passado direitista e as comparações a Collor?
Eis o que se discute nos bastidores. Quando chegarem à resposta, nós saberemos imediatamente. E que não se espere revolta, nem mesmo frustração, por parte do candidato preterido.

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