Por falar em alianças
Um belo dia, os social-democratas brasileiros aceitaram ocupar a lacuna deixada por duas gestões presidenciais infames, antes que barbudos comunistas o fizessem. Repartiram o bolo com remanescentes da ditadura militar (foragidos do governo Collor na CPI da Corrupção), nomes como Lobão, Tuma, Afanásio, Malvadeza, Amazonino, Napoleão, Inocêncio. Concederam a essa turma a Vice-Presidência da República; os Ministérios do Meio Ambiente, da Previdência, de Minas e Energia e de Esportes e Turismo; a Secretaria da Receita Federal; os comandos da Eletrobrás, da Caixa Econômica, do INSS, do Ibama, de Furnas, da CBF, etc.
Completarão, em dezembro, oito anos de simbiose. Oito, porque o FMI bancou a mentira cambial, sobrando dinheiro para o governo comprar deputados por duzentinha a cabeça. Também porque um tribunal eleitoral obscuro vive de cercear a oposição, fazendo vista grossa para caixa dois e demais falcatruas das partes aliadas – já que a Polícia Federal e a Procuradoria, dirigidas por simpatizantes do PSDB, engavetam as denúncias incômodas.
Talvez sejam doze anos,
considerando impossível existir uma disputa pluripartidária
honesta, quando o grupo hegemônico dita as regras e define adversários
de acordo com sua conveniência. Foram sintomáticos os esforços
para inviabilizar as alianças oposicionistas, isolando Itamar Franco
e destruindo as pré-candidaturas de Ciro Gomes e Garotinho.
Já as “investigações” envolvendo o clã
Sarney compõem estratégia diversa. Claro, a podridão
vive sob os lençóis maranhenses desde o tempo das sesmarias,
e alguém precisava lembrar à governadora que sua campanha sempre
foi uma farsa inviável. Mas é precipitado afirmar que o casamento
entre PSDB e PFL terminou. Digamos que os cônjuges “deram um tempo”.
Uniões estáveis, na base do eu-lavo-tu-enxugas, não terminam
com meras disputas de vaidade.
O afastamento provisório
foi um gesto cruel, doloroso, mas fundamental para a imagem de José
Serra, que busca se dissociar das sujeiras e morder uma fatia do eleitorado
descontente. Tudo coincidiu com a chegada do PMDB, no momento em que a campanha
do senador mais precisava de fôlego. Assim age a social-democracia brasileira
para se perpetuar no poder. O pessoal entende: na hora da verdade, toda a
boa e velha corja abraçará o candidato oficial. Simples assim.