Uma cidade brasileira
Imaginemos uma cidade brasileira qualquer. A Lei de Responsabilidade Fiscal lhe caiu a seco, sem transição e ignorando particularidades, ficando quase impossível cumpri-la à risca. Afinal, é uma cidade comum.
Tão comum que
grande parte do transporte público é realizada por perueiros,
gente de qualificação variável cujos patrões,
os donos das frotas, compõem um seleto cartel. Metade é clandestina,
ou seja, não segue normas nem paga tributos e às vezes entra
em choque com guardas municipais. Para desespero dos camelôs, onde também
proliferam irregulares.
Igualmente constituídos por pessoas de origem diversa e à margem
do mercado de trabalho, os exércitos de segurança particular
têm o agravante de servir a comandos nebulosos. Seu efetivo supera o
das polícias militares e existe porque há outra horda imensa,
heterogênea e armada, porém destituída de uniforme, que
sobrevive praticando violências contra os conterrâneos.
A conseqüente paranóia faz com que bairros inteiros se fechem, privatizando o espaço público, obstruindo ou selecionando o acesso do contribuinte a vias e praças que ele sustenta. Mas a segregação visa, de fato, os que não podem contribuir com coisa alguma e “moram” à sombra da ilegalidade.
Perueiros, camelôs, caubóis, loteamentos e invasões existem em todo centro urbano, legados por nefandas administrações que criaram imenso rol de problemas para esconder outros e angariar votos. De acordo com essa laia de políticos, já não há o que fazer com cidadãos anômalos, salvo matá-los numa guerra campal.
Mesmo que os verdadeiros responsáveis pelo desastre cuspam em suas obrigações constitucionais, os municípios devem sanar essas fissuras desestabilizadoras com urgência. Estamos chegando ao ponto de ver, na podridão social e urbanística e no assassinato de prefeitos, fatalidades inexoráveis da cidade brasileira ordinária.
Administradores honestos alegam falta de condições financeiras e legais para assumir os delitos alheios, municipalizando a catástrofe. Por isso a conscientização do eleitorado precisa acompanhar qualquer projeto viável, escancarando o jogo de interesses que envolve instituições estaduais ou federais. Especialmente neste ano, quando as vitrines locais receberão toneladas de pedras hipócritas e oportunistas.