Guilherme Scalzilli

Início

Blog

Biografia

Livros

Artigos

Ensaio

Mídia

Inéditos

Vídeo

Contato

Uns loucos de pedra

Benedito desconhece a existência de parasitas inorgânicos no plâncton e não lhes dá a mínima. Se soubesse o mal (ou o bem) que fazem, seria outro, não ele. Portanto, expele bolhas pelos parasitas inorgânicos. Tampouco o comoveriam vedadores para aparelhos de endoscopia, ou a insuficiência hidrolítica nas transcrições da hipoderme, ou as micoses que assolam rugas inferiores dos cogumelos, se essas coisas existissem.

Mas ele guarda uma secreta cumplicidade para com os simpáticos malucos que passam a vida estudando assuntos insondáveis, sob o escárnio (ou, pior, a indiferença) dos cidadãos normais. Sabe como se sentem. Embora não colecione anelídeos, também estremece com um assunto de pouquíssimo interesse cotidiano: a administração pública.

Em ano eleitoral, é o excêntrico de plantão. O pessoal o evita, forjando independência, ceticismo, tédio. Se critica a apatia política geral, ouve gracejos. “Qualquer eleito será apenas mais um sórdido afanador de bens coletivos ou outro dos raros honestos entregues às feras que sempre se locupletaram e doravante fá-lo-ão com a mesma desenvoltura carnífice. Não há saída.”

Pois é, ele assente, e bebe seu gole. Carros tentam vencer jorros de lama levantados pela tempestade de cinco minutos que transformou tudo no mais absoluto caos. Um ônibus, lotado de gente que saiu de casa às quatro da manhã, quebrou e encheu de entulho vindo na enxurrada. Nos arrabaldes, trabalhadores lutam contra ondas infectas para salvar seus poucos pertences, incluindo filhos pequenos e documentos.

Benedito divaga: “que dirão nossos bisnetos diante das imagens dos cidadãos subindo em postes para não morrer afogados? Pararão de rir quando souberem que isso acontecia regular e impunemente?”

É uma espécie de fossa, coisa de corno mesmo, concluir que a política virou uma monstruosidade contagiosa e proibida. Infeliz politizador, sem vínculos partidários ou profissionais, descobre que as pessoas o acham leviano, fantoche, laranja, arrivista, cretino, bobo. Ele não se conforma. “Cacete! E a água entrando pela janela da sala? E a velha sangrando num canto espremido do hospital imundo que o patrão diz que paga, quando reclama dos impostos absurdos?” Ninguém reage.

Benedito ainda não entrou para a ordem mendicante e, se fosse juiz, ia achar muito bom ganhar doze paus por mês. Que se doessem os professores. Mas não é magistrado, nem jogador de bola, nem candidato, apenas um prolixo nefelibata passando vergonha no boteco e se afastando inconscientemente da maioria lesada que vota a contragosto, por obrigação.
Como os especialistas em gírias mesopotâmicas, ele não está sozinho. Ainda restam punhados desses mamíferos em extinção, crentes na possibilidade de haver lugar para a sensatez cabeça-dura e desinteressada na orgia pseudo-democrática. É uma pena mas, de manhãzinha, depois de porres existencialistas, esses loucos continuarão a vagar por aí pregando a zumbis entorpecidos pela frustração.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Caros Amigos
Revista Caros Amigos