Viagem pelas trevas do ludopédio
Muitos se esgoelam, expurgando as próprias insignificâncias como se parissem um estágio avançado de humanidade. Os indiferentes, cuidando da churrasqueira, passando devagar na frente da tevê, desfilam sua soberba acima das fraquezas telúricas. Outros apenas torcem contra, reunidos numa sádica mas ínfima minoria de chatos amargurados. Devo confessar que pertenço a uma facção bem próxima do primeiro exemplo; o amor à peleja talvez explique por que perco tempo me revoltando e combatendo o irremediável, em plena copa do mundo.
O futebol é podre. Em todas as instâncias, no mundo todo. O presidente da Fifa promove subornos e orgias nababescas para seduzir as delegações nacionais, inclusive a imunda CBF, apoiada em suas federações, “eleitas” por dirigentes de clubes. Esta rede de corrupção, trançada ainda com uma vasta gama de interesses agregados (agentes, mídias, patrocinadores), confere maquiagem “profissional” ao crime organizado do esporte. Às vezes, ocorrem embates acalorados pela assombrosa dinheirama envolvida – e eis Ricardo Teixeira, os falidos clubes cariocas e as entidades regionais (lideradas por “Caixa D’Água” e Farah), disputando com a TV Globo e a Liga Nacional (Koff e o Clube dos 13) o controle do Campeonato Brasileiro.
É um mundo à parte, alheio à legalidade, onde se decide secretamente as glórias e tragédias do iludido torcedor. Protegendo a súcia, além da imunidade parlamentar, existe uma muralha de influências políticas. Ninguém é efetivamente punido. A CPI virou sabão, o recente projeto de lei que cria a responsabilidade patrimonial do dirigente caminha para o esquecimento e as diversas comissões são logo esvaziadas pelos burocratas ociosos que as compõem.
Diante do patamar escandaloso
a que chegou nosso futebol e por sua importância social, econômica
e cultural, instituições federais sérias deveriam criar
os meios legais e políticos para assumir o controle da pocilga. Mas
intervenção é opróbrio na terra sem lei.
Então só nos resta a pressão popular. Fazer a turba lesada
sentir-se responsável pelos atos de Eurico Miranda, Luiz Estevão,
Zezé Perrela, Edmundo Silva, Collor e Alberto Dualib, que não
viraram donos do Vasco, do Brasiliense, do Cruzeiro, do Flamengo, do CSA e
do Corínthians por mero acaso. Também inquirir o botafoguense
sobre a presença do bicheiro Luizinho Drumond na diretoria do clube,
entre tantos outros exemplos país afora. Enfim, conscientizar as torcidas
acerca do papel que podem exercer, nos estádios e nas urnas, a favor
da moralidade.
Talvez a imprensa esportiva
ajudasse, deixando de ser omissa, ou (na melhor das hipóteses) apaziguadora;
e o jornalismo dito “sério”, perdendo o preconceito, escancarando
os bastidores dessa vergonha nacional.