Guilherme Scalzilli

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A ameaça fantasma

Nos anos 80 era comum ouvir, em rodas mais ou menos subversivas, que um terço dos bancos norte-americanos quebraria se parássemos de pagar um dia de juros da nossa dívida externa. Sempre desconfiei que o cálculo não era verossímil, já que de difícil aferição. Mas todo “especialista” na área concordava que o tapa seria retumbante, e para nós, jovens e pobres incautos, não parecia sensato duvidar. Naqueles tempos bicudos, entre cooptados e entusiastas, repetíamos a palavra moratória como um mantra libertador.

Havia, como sempre, a minoria hegemônica de conformistas, autodenominados sensatos, para os quais o calote era um opróbrio horroroso. Soltavam urros indignados, antevendo grandes catástrofes isolacionistas e repetindo as velhas máximas “deixaríamos de ter remédios em nossas farmácias!” e “vamos todos andar de charrete!”

Fico imaginando a cara deles agora. A possibilidade deixou de ser maldita, ganhou até eufemismos moderninhos (“default” é o máximo) e se transformou numa jogada agressiva de negociação. Malásia e Rússia, em prol dos respectivos interesses nacionais, já souberam virar o tabuleiro e refrearam a ganância e o complexo de superioridade dos seus credores. Pois malaios e russos continuam por aí, lépidos e fagueiros, tomando Coca-Cola gelada no avião. Até a alquebrada Argentina acaba de esmurrar a mesa, botar os cobradores porta afora, espalhar para todos os jornais e fazer dengos, e o governo estadunidense imediatamente ordenou ao FMI que fizesse um acordo.

É assim que se barganha na quermesse econômica planetária de hoje. Foi com essa virilidade que a delegação brasileira atuou na Conferência da Organização Mundial do Comércio, ocorrida em setembro, na cidade mexicana de Cancún. O Brasil liderou um grupo de vinte e tantos países, rotulados de “em desenvolvimento” para encobrir o fato de serem gigantes populacionais e potências econômicas regionais. O grupo inclui China, Índia, México, Indonésia, Malásia e Nigéria, e se negou, em bloco, a corroborar as exigências dos EUA e da União Européia. Estes reagiram furiosos, acenando com as retaliações de praxe e jogando bravatas aos quatro ventos.

Tudo balela. Inexistem sanções econômicas em escala mundial. O emprego, a aposentadoria e a eficácia dos serviços públicos nos países ricos dependem diretamente do comércio de suas porcarias audio-visuais e de seus brinquedos domésticos e dos privilégios legais conferidos a laboratórios, montadoras, prestadores de serviços e instituições financeiras. Dizem que vão partir para pressões bilaterais. E daí? Os bravos ministros que peitaram a sanha espoliadora na OMC mostraram que a arrogância protecionista tem limites e pode fracassar perante a organização e a teimosia das vítimas.

Os burocratas do capital “desenvolvido” sabem disso há tempos. E varam madrugadas insones com medo de que a moda pegue, estremecendo a cada novo governo democraticamente empossado que, desfrutando de popularidade e apoio instrumental sólido, se ponha a negociar digna e resolutamente. Uma boa lembrança para o futuro da Alca: basta arranhar a histórica submissão financeira, ameaçando entornar o caldo, e todos se põem à mesa para discutir - principalmente os ricos, que têm muito a perder. É o bísines, mai broda!

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