Guilherme Scalzilli

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A única solução é descriminar

Os ginasiais de hoje não se agüentam diante de escarradeiras, votos de cabresto, espartilhos, “Emulsão de Scott”, calhambeques sem qualquer segurança e tantos outros símbolos dos tempos da bisavó. E se compungem porque seres humanos eram vendidos em praça pública, com o aval do Poder Público, e quiçá da própria bisa. E tudo isso foi agorinha há pouco.

Em futuro próximo, se cretinos texanos não acabarem logo com o mundo, a rapaziada continuará tendo diversão certa, para desespero de seus infelizes professores (certas coisas não mudam), e não só por conta da obsolescência tecnológica ou do vestuário engraçado. Assim como ocorrera com a escravidão, excrescências legais que agora nos soam óbvias em breve perecerão sob o bom senso dos tempos. Os pedágios, por exemplo (“mesmo sem caminho alternativo, era obrigado a pagar? Quaquaquá!”).

Os vindouros se assombrarão ao lerem que “o crime organizado, financiado pela venda de drogas ilícitas, vencera o estado de Direito. Ações repressivas foram inúteis, dado o poderio bélico dos criminosos e a resistência das comunidades que os abrigavam. O esforço dos magistrados se esvaiu em sangue e frustração, pois corporações, Forças Armadas, Assembléias, Tribunais e Congresso estavam recheados de corruptos, seduzidos pelas imensas fortunas advindas do tráfico. E ninguém se dignava a mudar a lei...”

Nossos descendentes folgarão em saber, e cedo ou tarde constataremos, que sustentamos uma política antidroga que só favorece os criminosos. Estes sobrevivem graças à legislação estúpida, criada e mantida sob pressão dos EUA, na contramão do que ocorre no resto do mundo civilizado, principalmente quanto à criminação da maconha - planta de utilidade médica comprovada e ampla utilização, desde tempos imemoriais. Enquanto Holanda, Portugal, Dinamarca, Áustria, Reino Unido, Espanha, Suíça, Itália, Canadá e outros países adotam legislações mais flexíveis, nós, os peles vermelhas do quintal ianque, continuamos permitindo a prisão de milhares de jovens pobres (pois os ricos escapam na base do suborno) por fumar um mato fedido. E, o que é muito pior, insistimos em proporcionar a bandidos os lucros próprios da rentável união de ilegalidade e monopólio.

Em nome da sensatez, um grupo de criminalistas e políticos (como o deputado Fernando Gabeira e o senador Jefferson Péres) já está se mobilizando para questionar a idiotia repressiva. Acontece que ela é alimentada por um esquadrão de “especialistas” que dependem indiretamente da proibição e se munem de pretensa couraça técnica para vomitar porcarias pseudo-científicas, à guisa de verdades inquestionáveis (as “pesquisas” sobre uso de maconha em universidades são hilariantes).

Preconceitos, falácias e hipocrisias serão facilmente derrubados com estudos respeitáveis e discussões amplas, que não se limitem à velha fórmula terapeuta-padre-mãe-delegado. Já quanto ao mérito jurídico da questão, é hora de se delimitar exatamente até onde o Estado pode interferir no que o cidadão planta ou consome dentro da própria casa.

Por falar em História, eis um anúncio veiculado em jornais brasileiros nos primórdios do século passado: “Cigarros Índios de Grimault e Cia (cannabis indica). Combate Asthma, Opressão, Insomnia e Catarrho. À venda em todas as Pharmacias.”
Louco, não?

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