Guilherme Scalzilli

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Campeão em desperdício

Poucos puderam acompanhar os Jogos Pan-Americanos ocorridos no mês passado. Além de desocupados ou insones, os fãs do esporte teriam de ser abonados assinantes de tevê a cabo, já que a aberta ignorou o evento. Pois, como se sabe, o Brasil atingiu uma soma histórica de medalhas e terminou a competição praticamente empatado com o Canadá, potência olímpica, que ficou em terceiro lugar. Chatos de galocha tentaram desqualificar esse sucesso, exagerando a pobre e desorganizada infra-estrutura dominicana e salientando a ausência de concorrentes ilustres – como se os brasileiros não tivessem lá seus sérios desfalques.

Calma, não é necessário estapear a esmo: ninguém vai dizer que os méritos são do governo Lula. Também (e principalmente) no esporte é impossível conseguir resultados em apenas sete meses de governo. Afinal, foram décadas de esculhambação, em que o esporte serviu para lotear cargos, rifar privilégios, desviar fundos, ajudar bingos e financiar caravelas encalhadas.

Poderíamos agradecer à Lei Agnelo-Piva, de autoria do senador Pedro Piva (PSDB-SP) e do então deputado Agnelo Queiroz (PC do B-DF), hoje ministro dos Esportes. A lei destina quase 2 % da arrecadação das loterias federais ao Comitê Olímpico Brasileiro, que faz novo rateio entre diversas entidades. Dá algo em torno de R$ 30 milhões por ano. Mas esse investimento (incluindo a verba oriunda de estatais, dirigida a modalidades específicas) parecerá uma piada se considerarmos quanto só o futebol movimenta no período. E as principais federações continuam latifúndios de seus próprios Ricardos Teixeiras, alheios a qualquer transparência, prontos para perseguir e aniquilar quaisquer opositores.

Alguns atletas olímpicos brasileiros só conseguem sucesso, ou subsistência, porque vivem no exterior. A maioria permanece no país, e não costuma receber sequer arroz com carne moída, muito menos equipamentos apropriados, e precisa tomar quatro coletivos para treinar de madrugada, em condições ridículas e depois de extenuantes jornadas de trabalho. São pessoas que competem sob trituração fisica e emocional, embora humilhados por “patrocínicos” irrisórios e burocratas hipócritas que só aparecem para aproveitar o sucesso alheio. Falta acompanhamento de psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, clínicos gerais, advogados. Falta até mesmo vestuário correto.

O esporte poderia nos proporcionar, em poucos anos, uma enorme revolução sócio-cultural. Criaria hordas de empregados regulares, especializados, diretos e indiretos, principalmente crianças e jovens, que teriam suas perspectivas renovadas e aprenderiam a valorizar não apenas a saúde corporal mas a disciplina, a perseverança e o companheirismo. Num país de recursos naturais imensos e população com inúmeras aptidões e senso competitivo, as inevitáveis vitórias proporcionariam uma auto-valorização e um respeito internacional cujas importâncias bem conhecem os países que investem seriamente nesse sentido.

Conhecendo essas repetidas verdades, ver nossos heróis abraçados numa bandeira desfigurada, após atingir marcas improváveis, berrando o hino brasileiro às lágrimas e orgulhosos de uma nação que os ignora, dá vontade de beber querosene. No copo baixo, sem gelo, brindando ao país do futebol.

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