Democratismos de ocasião
Os reflexos da crise venezuelana na opinião pública brasileira lembram a polarização de simpatias que assistimos há cinco ou seis anos, quando o MST provocava uma comoção nacional de proporções inéditas. A grande imprensa, envolvida nas ansiedades gerais, dizia que em muito breve o movimento agiria em áreas urbanas e acusava o MST de constituir hordas piratas para desestabilizar o governo tucano com um movimento de cunho político, tentando golpear a democracia e minar os alicerces do estado de Direito. Era similar, na truculência inconseqüente, às manifestações do tipo “fora FHC”.
Coincidentemente, Hugo Chávez se elegeu naquela época, com enorme apoio das camadas mais pobres da população. Foi reeleito em 2000, quando uma nova Constituição passou a vigorar, respaldada por plebiscito. Logo surgiu um fortíssimo conglomerado de interesses empenhado em derrubá-lo: empresas, sindicatos, veículos de comunicação, setores militares. Tendo perdido a chance de fazê-lo no porrete, os golpistas tentaram implodir a economia do país com a paralisação do setor petrolífero e a promoção de manifestações regulares.
Desta vez, porém, o consenso midiático brasileiro considera os revoltosos arautos da democracia. A desobediência civil tornou-se justificável; a desestabilização do regime, uma alternativa dura mas necessária. Os que defendiam a inviolabilidade constitucional contra a insurreição camponesa agora pregam a derrubada de um governo democraticamente constituído.
O desespero e a ignorância podem originar vários tipos de governantes populistas, mas apenas alguns deles conseguem nascer pelo voto, sobreviver na normalidade institucional e findar com uma transição eleitoral limpa. Quando não há o velho e bom golpe, é porque as forças repressivas se mantiveram coesas, atuando em nome dos donos do poder – ou seja, daquilo que estes convenientemente passam a considerar “legítimo”. Plebiscitos, fora da Suíça, só valem quando os resultados agradam. Caso contrário, o popular passa a autoritário e o golpista vira libertador.
Evitemos cometer a mesma simplificação: Chávez não é o Bolívar imaginário que tenta personificar. Entretanto, com a imprensa controlada por uma das partes em disputa, seria impossível, no exterior, avaliar seu governo. E ele pode mesmo ser o Tinhoso de farda, mas foi empossado na forma da lei, com previsão de consulta popular sobre seu governo, caso raríssimo no mundo sufragista.
Com Chávez, Lucio Gutiérrez no Equador e Lula no Brasil (e um futuro incerto no Paraguai e na Argentina), é compreensível o desconforto do governo Bush diante da participação brasileira nos assuntos vizinhos. Afinal, os EUA vêm a América Latina como um conjunto de republiquetas que não aprenderam que a democracia (nos moldes estadunidenses) não admite um presidente ex-metalúrgico - embora admita a vitória de um candidato que não obteve o maior número de votos.
Empunhando a bandeira da solução negociada e institucional, a diplomacia do governo Lula tem a estatura democrática e o embasamento histórico para questionar a ingerência norte-americana no continente. Torçamos para que seja bem sucedida. Senão, logo estaremos defenestrando qualquer mandatário subitamente impopular, bastando que os EUA forneçam munição política (quando não logística) para farsas redentoras de ocasião.