Guilherme Scalzilli

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Deus é brasileiro?

Há alguns anos, cineastas dinamarqueses lançaram um movimento intitulado “Dogma 95”, que repercutiu mais por suas incongruências do que por resultados práticos. A brincadeira gerou o fundamental “Os idiotas”, do guru Lars von Trier, e meia dúzia de filmes razoáveis, baseados em imagens digitais tremidas, som direto, ausência de efeitos; mas também nos lembrou que o visionário é irmão do oportunista, pois von Trier e seus discípulos souberam repercutir na boçalidade roliudiana que diziam combater, amiúde traindo os próprios ditames, e se deixaram inserir numa prateleira inofensiva do sistema.

O artista brasileiro tem justos motivos para achar aquilo meio bobo. Sempre convivemos com a pobreza instrumental, inclusive aproveitando-a esteticamente, e dezenas de obras importantes foram originadas no heróico estoicismo de técnicos e atores. É nossa versão perene de “dogma”, compulsória, sofrida e (eis o crucial) sem utilizar um centésimo do aparato estatal que sustenta as sandices dinamarquesas.

Nosso conceito de “incentivo” cultural prega que o Estado não tem nada a ver com cultura, ajuda quem pode, e se quiser. E lá vão os criadores se humilhar sob executivos pobres de espírito para conseguir uns metros de fio, dois dias de sanduíche e seis kombis amarelas, a muito custo. Em troca, as multinacionais exibem logotipos antes, durante e depois do filme que custou, no total, meia hora do lucro de qualquer filial dessas empresas. Como se fizesse um grande favor à Humanidade, o funcionário exige pelo menos dois atores de novela. Sem vanguardismos, esse atestado de pobreza; afinal, cinema é indústria. En-tre-te-ni-men-to, fui claro? Quero favela cenográfica e empregada de aventalzinho. E troca o título. Ah, e não dá pra entrá cos dois cento de risole, por causa do aumento da Cofins. E precisamo terminá a reunião - nos vemo no mêis que vem? – que eu tô cansado, lôco pra tomá uma ducha e vê Intercine.

Super mudérrrno. Enquanto isso, as hediondas máfias da distribuição monopolizam o mercado exibidor, transformando o cinema brasileiro em subgênero, destruindo salas históricas e promovendo qualquer excremento que os estadunidenses quiserem impingir às retinas de milhões de jovens semi-analfabetos. E o PSDB paulista esfrangalhando a TV Cultura, rede pública. E Nelson Pereira dos Santos, o maior cineasta brasileiro vivo, tentando trabalhar.

Mas existe um punhado que consegue, graças a uma escancarada proximidade do poder que atingiu o ápice nos anos FHC, com sua culturinha de gabinete e convescotes regados a uísque doze anos. Sempre que alguém ameaça distribuir melhor as migalhas orçamentárias e contemplar artistas sem amigos ricos nem contatos quentes na Globo, emerge o lobby desses sapecas, encabeçados pelo notório clã Barreto, na contramão da imensa maioria dos profissionais da área. Como assim, contrapartida? Dirigismo! O dinheiro público é meu e ninguém tasca!

Precisamos urgentemente que o cinema (e todas as outras atividades culturais, inclusive educativas e esportivas) seja tratado como assunto de interesse nacional, algo já tão difícil depois que sicofantas extinguiram a Embrafilme. Basta de maquinações aristocráticas para sugar estatais. Desse jeito, as frutíferas regalias dos artistas europeus continuarão não nos fazendo qualquer sentido. Ou será o contrário?

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