Luana, inocente
Atentados contra delegacias desafiam as instituições; presídios e casas de internação de menores oficializam a tortura e o assassinato; o Judiciário vê seus membros envolvidos em formação de quadrilha e venda de sentenças; grupos de extermínio atingem milhares de inocentes, num processo de “limpeza social” que maravilharia Pol Pot; escândalos vários mostram que a corrupção prolifera em todas as frinchas do Poder Público; o governo ameaça incrementar a já absurda carga tributária, inviabilizando a pequena empresa e exorbitando o desemprego.
Enquanto tudo isso constrange o país que tem a honra de abrigar Luana Piovani, o Ministério Público decidiu abrir inquérito justo contra ela. Luana foi entrevistada por um jornal de circulação restrita às praias da zona sul carioca, e afirmou que fuma maconha para relaxar. Teria infringido o artigo 287 do Código Penal (apologia ao crime), o artigo 12 da Lei 6368/76 (incitação ao uso de entorpecentes) e até o artigo 19 da Lei de Imprensa. A primeira reação seria “Não terão os senhores promotores mais coisas para ocupar suas mentes?” Mas nada ocorre por acaso nesse teatro de ociosidades.
Poucos ainda discordam que nossa legislação antidrogas, imposta pelo governo norte-americano, é uma estupidez repressora típica da época ditatorial em que foi parida. É lamentável que o governo Lula não tenha agido para modificar essa monstruosidade que financia o crime organizado, onera a segurança e a saúde públicas e até derruba governos. E afinal, ninguém, muito menos o Estado, tem o direito de decidir o que a musa fará em casa para retesar ou relaxar seus músculos magníficos. A repressão não serve para nada. Quem quiser pode comprar todo tipo de droga, legal ou não, independente de policiais sacanas, campanhas imbecis ou celebridades bebendo cachaça, fumando e falando palavrão.
E tanto as autoridades sabem disso que estão lançando suas patas sobre a própria expressão das obviedades. Por ojeriza à discussão, inventam formas de criminalizar a divergência. Afinal, ao sabor dos moralismos, qualquer manifestação pode virar apologética: o papa, ao condenar o controle da natalidade; o MST; vendedores de artesanato (maricas, camisetas do Bob Marley fumando um trabuco); letras de rap, hip hop, funk, pagode; jogos diversos; um ator que interpreta de forma convicente um sacripanta; Chico por “O meu guri”; Rubem Fonseca no conto “Feliz Ano Novo”; Oliver Stone em “Assassinos Por Natureza”, David Fincher em “Clube da Luta”; Jorge Furtado em “O homem que copiava” (com Luana); o ministro Gil (“Tão bom rever / a tribo, o fumacê / do cachimbo da paz”); o programa do Gugu; e este artigo, claro.
O tolhimento da discórdia quer extinguir o polêmico e o chocante, consagrando o medíocre, o políticamente correto, a santa hipocrisia. Finjamos que não existem juizes que fumam maconha, nem jornalistas, advogados, publicitários, atletas, médicos, artistas, policiais. Não deixemos que o debate sobre a descriminação passe pela escolha pessoal ou pelo prazer; o hedonismo é incompatível com a liberdade de expressão! E, acima de tudo, impeçamos a sociedade de utilizar a confissão pública do crime como uma forma de desobediência civil, senão o questionamento e o bom senso se propagam.
Como Soninha há dois anos, Luana acaba de descobrir uma triste verdade: ser sincero, neste país, é burrice.