O jogo jogado
Quem conhece os bastidores das campanhas eleitorais e o cotidiano da administração pública sabe que nesse meio não existem inocentes, que nem as militâncias anônimas são formadas apenas por diletantes desinteressados, e que o tal jogo limpo é uma quimera. Vencer eleições exige profissionalismo, recursos e capacidade de articulação em graus que fogem ao controle do melhor dos mortais. Talvez não seja sequer possível angariar um respeitável número de votos sem coadunar com qualquer deslize ético ou legal, mesmo no confortável esquema “façam mas não me contem”.
É uma atividade extenuante, ambiciosa por definição, extremamente competitiva, inglória para a maioria dos que se atrevem a exercê-la. E não bastasse o exercício do mandato levar consigo seus vícios de origem, precisa ainda sobreviver numa selva de interesses já estabelecidos, que desprezam votos, programas ou ideologias.
Não estou dizendo que a atuação política é degradante ou vã, que devemos simplesmente largar nossos exorbitantes tributos nas mãos de quem está disposto a ir para o inferno. A omissão não nos tornaria bons e superiores. Seríamos apenas ingênuos, fadados à derrota, toscos e ludibriados, embora honestos, para deleite dos especialistas que sabem ser torpes quando precisam. Por outro lado, tampouco devemos nos rebaixar à sordidez, e sim combatê-la de frente, defendendo sempre a legalidade e fomentando o amadurecimento de projetos políticos alternativos.
O primeiro passo é entender que os grandes veículos de comunicação costumam sobreviver graças à simbiose com determinados interesses político-partidários. Isso não chega a ser demoníaco, nem mesmo é recente. Acontece que a brincadeira ganha ares de propaganda eleitoral quando o jornalismo excede os limites da hipocrisia. Ontem alguns parlamentares eram esquecidos no ostracismo dos radicais e caricatos. Hoje são expostos como vates da tolerância, mártires da liberdade de pensamento. Antes, os imensos problemas do país exigiam negociação, cautela e planejamento. Agora essa estratégia denota incapacidade. O governo Lula estava errado no que pretendia, e estará errado se realizar diferente.
Redações e gabinetes precisam se retroalimentar de ilusões, para que todos possam viver suas farsas democráticas num sufragismo sem representação nem transparência. Nesse mundo de fantasias, a manipulação pode levantar polêmicas fúteis, fomentar a cizânia e destruir reputações, seduzindo um bando de deslumbrados que pensam estar diante dos mais saudáveis, desapegados e relevantes debates da República.
Dói ver intelectuais e políticos respeitáveis repetindo mecanicamente os absurdos disparates que lhes foram servidos, sem um mínimo de senso crítico. Quando o conhecimento da dura realidade do poder proporcionar análises compatíveis com as regras do jogo jogado, quando as mistificações de boteco forem substituídas por posturas mais pragmáticas e visões claras do que está realmente em disputa, talvez então a esquerda brasileira esteja apta a praticar a política institucional em condições de igualdade com seus opositores.
Por enquanto, a militância está caindo no embuste da desinformação. Ainda se desgasta em exercícios de maniqueísmo, enxergando puros e vendidos, legítimos e estelionatários, heróis e bandidos, onde inexistem tais contrastes.