Guilherme Scalzilli

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Outros estelionatos

Alguns veículos de comunicação utilizam uma parcela importante da intelectualidade para reciclar e propagar conceitos discutíveis, acerca do governo Lula, que estão ganhando a aura de verdades inquestionáveis. É necessário interpelar esse processo de fabricação de obviedades e propor abordagens alternativas ao criticismo irresponsável.

Os criadores de falácias querem nos convencer que a vitória de Lula teria sido “estelionato eleitoral”. O PT, agora “de centro”, governaria sob os interesses do capital, defendendo o que sempre criticou, traindo as bases. Portanto, não existe mais um grande partido de esquerda no Brasil, a política econômica é horrível, os juros são culpados por todas as mazelas e seis meses é tempo suficiente para construir uma potência.

Péra lá! O que é ser “de esquerda”? Declarar a moratória e estatizar fábricas? Falar chinês? O programa de governo de Lula previa rupturas similares? Já é possível afirmar que os projetos sociais fracassaram? Superávit da balança comercial, redução da dívida pública e do déficit nas contas externas, controle da inflação e risco-país decrescente são indesejáveis? Existiriam tantas outras estratégias para atingir crescimento sustentado, Estado soberano e estabilidade financeira, após anos de políticas equivocadas? As reformas propostas no passado eram idênticas às atuais? Aliás, por que ninguém esmiuça as motivações ocultas nas greves dos funcionários municipais de Campinas, nas paralisações do transporte paulistano ou nos quebra-quebras promovidos pelos perueiros em Recife? Esses revoltosos vivem na mais amena legalidade? Todos os servidores são honestos, simpáticos, prestativos e eficientes? Não gozam de nenhum privilégio em relação aos outros trabalhadores?

Propor tais questões constitui tarefa evidentemente pedregosa, porque se criou uma dicotomia entre “situacionistas” e “racionais”, que abafa o debate. Mas, à medida que vislumbramos friamente o jogo de interesses que se disputa na surdina, vemos como os falsos consensos de hoje apenas reeditam as ilusões desfeitas no processo eleitoral recente.

A despeito das evidências, gênios da crônica política juravam que Lula jamais conseguiria se eleger presidente. “Vai perder fôlego”, diziam, “os poderosos não deixam”, etc. Com a votação histórica do petista, os ressentidos passaram a apostar que seu governo chegaria ao final do primeiro ano mergulhado numa grave crise econômica, sob frustração popular, pressionado por todos os lados. Falava-se em saída parlamentarista e até em impedimento. Mas Lula mantém uma popularidade esmagadora e crescente, suas articulações são hábeis e não falta (fora das redações) quem anteveja boas perspectivas para os anos vindouros.

É cada vez mais evidente que Lula tem pretensões políticas a longo prazo, cujo sucesso se mostra viável, senão previsível. Ainda surpresos com esta possibilidade, os amigos do governo passado tentarão atingir a imagem do atual, despersonificando os ataques, para não martirizar o presidente popular. Agora são reformas e juros, mas amanhã aquelas serão facilmente aprovadas e estes, reduzidos. Então bastará descobrir outros ganchos “jornalísticos”, conferir caráter plebiscitário às próximas eleições municipais, dar espaço às opiniões de FHC e aliciar incautos pensadores para o espetáculo dos logros inabaláveis.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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