Crises nossas de cada dia
O chamado “caso Waldomiro Diniz” é uma verdadeira lição sobre os bastidores da política profissional. A tendenciosa cobertura da imprensa só fez realçar o caráter infame do episódio, ao ignorar duas perguntas elementares, que muito esclareceriam se alguém tivesse a decência de formulá-las: por que uma cena gravada em 2002 só veio à tona agora, e como ocorreu o vazamento dessa gravação? Pois quem imagina que se trata de um esforço jornalístico casual, puro e desapegado acredita em boitatá e mula-sem-cabeça.
A reforma ministerial fechou um ciclo do governo Lula, marcado pela frustrada tentativa de coordenar o despreparo e a incapacidade das muitas facções envolvidas no projeto eleitoral, e representou a primeira articulação séria para construir uma sólida maioria parlamentar. Ao mesmo tempo, entretanto, permaneceram fortalecidos os setores mais sensíveis da gestão, que desde o início atraíram a discórdia e a cobiça gerais - o núcleo de negociações políticas, personalizado por José Dirceu, e a equipe econômica de Antônio Palocci. Exatamente os principais alvos do atual “escândalo”.
Na redistribuição de cargos federais importantes (principalmente os de segundo escalão, que conciliam verbas e cacife com pouca exposição pública), os partidos da base governista entraram em conflito e sofreram divisões internas, alimentando o desespero e o revanchismo das facções preteridas. Enfraquecidos em pleno ano eleitoral, todos precisavam criar capacidade de barganha para impedir o fracasso de suas ambições a curto e médio prazos.
nada melhor que um interlocutor
acuado para facilitar os entendimentos.
Mas tantos foram os indiretamente beneficiados pelo “caso Waldomiro”,
que este não parece apenas um doméstico ensaio de rasteira em
Dirceu ou Palocci. É necessário também situá-lo
no transcorrer de uma manobra em grande escala empreendida pelo PMDB, que
se impôs como bastião da governabilidade, conquistando espaço
gigantesco na administração federal, abocanhando alianças
regionais nas próximas eleições e resgatando o prestígio
de entidades como Renan Calheiros, José Sarney e Michel Temer.
Já a oposição pouco desfrutou do alvoroço. Enquanto o governo continua com maior aprovação do que seu antecessor, Lula se protege com uma popularidade maciça. Mais da metade do eleitorado não faz idéia de quem seja Waldomiro Diniz, e 85% afirmam desconhecer casos de corrupção envolvendo o PT (Datafolha de março). Ademais, para acusar o petismo de hipocrisia seria necessário que os programas de PSDB e PFL prometessem compra de votos, fraudes em privatizações e extermínio de adversários.
Poucos têm coragem de escancarar, em bom politiquês, quanta hipocrisia está envolvida nos arroubos moralizantes que surgem e desaparecem ao sabor dos vilões ocasionais. Num ambiente em que predomina o ardil e a sede de poder, a única transparência possível se resume a dois notórios criminosos brincando de Corleone diante da câmera, novo episódio do interminável “Big Brother” que zomba da nossa ingenuidade. Tão artificial e constrangedor que acaba nos seduzindo. Gratos pelo embuste e incrédulos quanto a todo o resto, viramos espectadores fiéis dessas “crises” convenientemente propagadas para redimir insepultos, abocanhar prefeituras e manter o governo refém de um apoio frágil e permanentemente negociado.