Maldição rediviva
A verdadeira “herança maldita” vai além de suas conseqüências econômicas aparentes. É um projeto político de pelo menos 18 anos, que revitalizou as arbitrariedades do período ditatorial e foi construído através do sistemático cerceamento eleitoral das facções antagônicas.
O voto indireto que abafou a ansiedade transformadora da redemocratização e permitiu o governo José Sarney teve ressonâncias na histeria que elegeu Fernando Collor, e o próprio afastamento deste exibiu o cuidado profilático de manter a situação sob controle. Quase todo o mandato de Itamar Franco foi permeado pela preocupação de construir uma candidatura situacionista. FHC assumiu a Fazenda um ano e meio antes das eleições de 1994 e, embora fosse mero coadjuvante na elaboração do Plano Real, personificou os compromissos embutidos na artimanha cambial populista. Sua posterior reeleição adveio porque a estabilidade artificial prolongou-se até os limites da credibilidade.
A ascensão de Lula à Presidência pareceu a muitos uma interrupção triunfal da trajetória política conservadora. Mas em meados de 2002 a vitória petista era política e estatisticamente previsível. A persistente fragilidade das instituições eleitorais, a expectativa de reações antidemocráticas oriundas dos poderios financeiro, midiático e governamental e uma ilusória predisposição da esquerda à derrota em escala majoritária serviram como objeções cotidianas àquele prognóstico, estimuladas pelo ranço partidário da imprensa hegemônica. Mesmo considerando alguma possibilidade de turbulência, entretanto, as evidências se impunham.
A coligação de centro-direita que sustentara os oito anos de FHC havia rachado em virtude do nebuloso caso Lunus, que inviabilizou a candidatura do clã Sarney. José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho não seriam capazes de confrontar a forte imagem oposicionista de Lula, alavancada pelo descontentamento popular. As pesquisas confirmavam esta tendência, principalmente quando se analisava os levantamentos qualitativos e, nos quantitativos, comparações entre os índices de intenção de voto (espontânea e estimulada) e expectativa de vitória.
O conservadorismo encabeçado por PSDB e PFL logo assimilou a inevitabilidade e soube aproveitar o momento para empreender um recuo tático: preservou da derrota seus quadros principais, assumiu o papel de observador malicioso, apostou no desgaste da nova gestão e, principalmente, jogou todas as fichas nas próximas campanhas municipais. Utilizando-as habilmente, a oposição faz de cada comício de bairro um palanque para 2006 e difunde a besteira de que as eleições constituem uma espécie de consulta popular sobre o governo Lula. A mentira do “plebiscito” reduz a heterogeneidade das disputas regionais a uma legitimação do mandato presidencial e privilegia o mais vil oportunismo, ao sugerir que o cidadão pense apenas na política econômica quando votar para vereador.
O eventual sucesso desse
ardil propagandístico mostrará que a “herança”,
a verdadeira, envolve uma estrutura de manipulação política
ainda em pleno funcionamento. Alternâncias passageiras de poder apenas
embelezam de figurinos democráticos a coreografia das transições
que nada modificam. A maldição se perpetua, independente de
mandatos passageiros, porque seus arautos jamais foram derrotados. Apenas
descansaram, aguardando o momento certo para agir.