Guilherme Scalzilli

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O ano um

Ninguém admire que os comentários sobre o governo Lula raramente se atenham às atividades da administração em curso, no recorte temporal necessário, mas busquem insistentemente compará-la às administrações anteriores. Tais comparações geralmente estabelecem prejuízos à imagem da atual gestão, e não apenas pelo confronto com a fantasia elitista do “presidente ilustrado”, malicioso e cosmopolita, que FHC lutou para construir. A idéia é eqüivaler os mais de quinze anos do conservadorismo pós-ditadura ao curtíssimo período de transição empreendido pelo novo governo, de forma a neutralizar a importância das transformações que eventualmente realize. Mas as analogias estilhaçam quando ponderamos sobre o presente à luz de um distante 1995.

O ano um de FHC foi marcado por desentendimentos entre ministros (Adib Jatene, Pedro Malan, José Serra), ameaças a aliados ("a caneta que nomeia é a mesma que demite") e quiproquós internos: o presidente do PSDB, Pimenta da Veiga, renunciou depois de brigar com Sérgio Motta (março) e Pérsio Arida saiu da presidência do Banco Central por disputas com Malan (maio). Atribulações ocorreram também fora dos gabinetes: em Recife, manifestantes apedrejaram o ônibus que levava FHC, logo estouraria a greve nacional dos petroleiros e cerca de 300 mil servidores federais parariam contra as privatizações em andamento – oito estatais seriam vendidas só naquele ano.

Os escândalos proliferaram. Parlamentares condenados pelo uso ilegal da gráfica do Senado foram anistiados. José Dallari, secretário de Acompanhamento Econômico, retirou-se sob acusações de vazar informações para clientes de sua consultoria. Henrique Hargreaves deixou a presidência da ECT por receber dinheiro do Sebrae. Grampo telefônico, provavelmente ordenado por José Graziano (Incra), flagrou o chefe do Cerimonial do Planalto, Júlio César dos Santos, arquitetando a escolha da empresa que forneceria os equipamentos do projeto Sivam. O Ministro da Aeronáutica, Mauro Gandra, citado nas conversas, pediu demissão. Divulgou-se o conteúdo da “pasta rosa”, pertencente ao banco Econômico, com listas de políticos beneficiados por doações ilegais, envolvendo ACM, José Sarney e Delfim Netto. Sob pressão do PFL, o governo abafou o caso e o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, arquivou-o.

No campo das “realizações”, iniciou-se conchavos para as reformas da Previdência e tributária, que FHC jamais conseguiria aprovar. A equipe econômica tentou reagir à crise do México com mudanças desastrosas na política cambial. A manutenção demagógica da inflação baixa resultou em juros estratosféricos (150% maiores que os atuais) e na deterioração das contas públicas e da balança comercial. Foram extintos quase 100 mil postos de trabalho, embora o Proer, instituído em novembro, tivesse começado a distribuir dinheiro público para salvar banqueiros falidos.

O início do governo Lula não deixou de apresentar conflitos, trapalhadas e contradições, supervalorizados de acordo com as conveniências. Tampouco se sobressaiu na maioria dos requisitos fundamentais de seu programa eleitoral, especialmente quanto a desemprego e projetos sociais. Acautelou-se em demasia, levou a barganha um pouco além do desejável, etc. Mas as diferenças entre os dois inícios de mandato (e é só o que podemos avaliar) deixam claro que o petista, se quiser igualar FHC, ainda tem muita besteira a cometer.

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