Guilherme Scalzilli

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O diálogo urgente

Diante dos altos e baixos do governo Lula, a esquerda que sempre o alicerçou não sabe se ri, se chora ou se abandona o teatro. Muitos procuram as bilheterias para exigir seus votos de volta. Os que ainda toleram as idiossincrasias do enredo têm grandes dificuldades em conciliar os dogmas históricos das campanhas, anunciados pomposamente nos cartazes, com um “espetáculo” bem menos empolgante: aplaudem o palco vazio, forçam gargalhadas após piadas chochas e fingem ternura em canastrices tediosas. Outros apenas aguardam, angustiados, uma reviravolta salvadora.

É ingrato defender governantes quando não se recebe um salário generoso, cadeira para o paletó e benesses gerais. Quem o faz, principalmente os pobres mortais que sequer possuem filiação partidária, passa por fanático, bobalhão, desinformado. Soa até mais “intelectualmente correto” se apresentar como oposição, mesmo sob máscaras simplistas (o cético, o inimigo das autoridades, o velho animal político, o niilista malicioso), e não sem perspectivas de sucesso, pois sempre há absurdos a combater, ilicitudes a denunciar. Afinal, governo algum é totalmente vitorioso.

Desconsiderando as múltiplas facções que colorem a coligação partidária dominante e o grau de centralização decisória em torno do núcleo subordinado ao presidente, às vezes fica obscuro se os novos descontentes estão agindo por idoneidade programática, oportunismo, inveja de poder ou cabotinagem. Pouquíssimos souberam apresentar alternativas viáveis para a ortodoxia da política econômica ou para os cortes de gastos orçamentários; a maioria esperneia, brandindo estatísticas e slogans, como se romper com o capitalismo de mercado e com o sistema financeiro fosse desejável e tranqüilo.

Infelizmente, os dois lados estão sucumbindo às próprias paranóias, e o que se vê é um desfile de fantasmas libertos. A direção petista tem horror à ingovernabilidade (perda de controle administrativo, parlamentares arredios, pânico de empresários e investidores), e sabe que esse perigo é bastante palpável. Ao mesmo tempo, parece acreditar que o cinismo pragmático que norteia projetos hegemônicos de poder é incompreensível ao caráter inerentemente combativo da militância, muitas vezes inconseqüente e corporativa, mas certamente democrática e legítima.

Já a oposição de esquerda tem pesadelos com o golpe eleitoral, a frustração de expectativas, o assassínio de utopias; se sente traída, gradativamente isolada das instâncias deliberativas, enfraquecida pelo assembleísmo voluntarioso e enquadrada no autoritarismo partidário. Se exige coerência de um presidente que defendia mudanças, percebe que sua popularidade continua alta e, portanto, que as prioridades do eleitorado não são assim tão óbvias e homogêneas quanto gostaria.

O messianismo do candidato operário prometeu (e em parte proporcionou) uma redenção institucional inédita. Tem-se um governo de extração socialista, grande respaldo público e boas intenções, mas envolto em sérias armadilhas políticas que poderiam ser evitadas com um mínimo de bom senso e humildade. Ao se distanciar das bases, abafar a discórdia e articular apoios outrora abjetos, a administração federal pensa mostrar perspicácia, mas apenas escancara suas fragilidades; e julga controlar as hordas fisiológicas e elites ressentidas que ameaçam desestabilizar o país, quando as fortalece e redime.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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