O governo venceu. E daí?
Muito cuidado com comentaristas políticos que insistem na idéia de que o governo “perdeu” as eleições municipais. Estão agindo de má fé. Uma coisa é tecer análises místicas e previsões apaixonadas, duas prerrogativas da função. Outra é deturpar estatísticas: o palpite vira mentira e a opinião se mancha de propaganda.
Esclareçamos definitivamente que as distorções são estimuladas pela antecipação da campanha presidencial de 2006, visando criar um cenário propício ao surgimento de forças capazes de impedir a reeleição de Lula. A cômoda polarização “governo versus não-governo” resulta de raciocínio medíocre, que ignora uma enorme gama de variáveis partidárias cujo posicionamento futuro permanece incerto. Entretanto, mesmo considerando por hipótese a coligação governista (PT, PTB, PL, PSB e PC do B) e sua oposição mais veemente (PSDB e PFL), os números permanecem incontestáveis.
No primeiro turno, quando as múltiplas alternativas favoreciam escolhas baseadas em critérios partidários, o governo obteve 33,6% dos votos válidos para prefeito, liderando a votação em 16 estados; a oposição chegou a 28,4%, vitoriosa em 8 estados. Arredondando, o governo venceu o primeiro turno por uma diferença de 5 milhões de votos e o segundo por 1 milhão de votos. Os aliados de Lula elegeram prefeitos em 13 capitais (9 do PT) e em 23 das outras 70 maiores cidades do país, enquanto seus adversários governarão apenas 6 capitais (5 do PSDB) e 18 dos maiores colégios restantes.
Quando foi conveniente, o falacioso argumento plebiscitário dizia que as eleições refletiriam o cacife político de Lula. Pois seu partido teve uma votação recorde, a maior do país, conquistando novo eleitorado interiorano sem perder um considerável apoio nos grandes centros. Agora, ninguém sabe dizer se o pleito foi realmente federalizado. Belo Horizonte, Recife, Vitória e Fortaleza doravante nada significam. Um punhado de esquizofrênicos tem a pachorra de festejar o “número de eleitores governados” pelo PSDB, insinuando, por exemplo, que José Serra abocanhou subitamente todos os votos paulistanos. São Paulo ganhou importância simbólica e política que há quatro anos ninguém via (e permanece discutível). Administrar a metrópole caótica, depois de uma gestão bem-sucedida, virou triunfo incontestável e empreitada de sucesso garantido.
Tudo isso para não admitir que o governo venceu. E daí que o governo venceu? Isso significa que ele é “bom”? Qual o problema de afirmarmos, sendo verdade, que Lula está pavimentando com competência o caminho à reeleição?
Os porta-vozes da oposição repetem o equívoco que antecipou a vexatória frustração de suas previsões sobre o pleito de 2002. Acreditam estar contribuindo para a estratégia de minar a imagem do governo, quando na verdade mergulham numa ilusão cômoda. Tanto promovem a farsa que terminarão alienados por ela, separados do país real pela barreira de sua própria arrogância. Fariam muito mais pela causa se, em vez de propagar alucinações à guisa de consolo e abraçar fantasias divertidas, encarassem a dura verdade embutida nas estatísticas.
Saber reconhecer as derrotas dignifica o caráter do competidor. Pode-se lamentar, discutir, chorar, e a democracia depende de um permanente exercício do contraditório. Mas distorcer a realidade é uma forma de transtorno que, em política, já teve denominações piores.