Guilherme Scalzilli

Início

Blog

Biografia

Livros

Artigos

Ensaio

Mídia

Inéditos

Vídeo

Contato

O império abalado

Apesar dos trilhões de dólares investidos por décadas em propaganda audiovisual, os EUA estão gradativamente dilapidando o patrimônio moral conquistado nos anos posteriores à II Guerra e reforçado pela extinção da União Soviética. Não bastasse ver arruinada a pretensa inviolabilidade territorial, o país começa a amargar reveses militares e uma desmoralização internacional maciça.

Tornou-se clara a importância estratégica da simbologia “11/9” no sentido de respaldar a sanha invasora contra Afeganistão e Iraque. Mas a histeria, o patriotismo e a comoção não foram capazes de esconder a humilhação pública do “melhor-serviço-secreto-do-mundo” e a flagrante vulnerabilidade de uma sociedade orgulhosa de suas Forças Armadas. Para complicar, o governo Bush não conseguiu desvendar importantes mistérios acerca do episódio, enquanto o planeta “descobria” que o ataque ao Afeganistão estava sendo planejado havia meses, para a construção de oleodutos que permitissem transportar petróleo da Ásia Central até o Oceano Índico (com a cumplicidade de Rússia, China, Israel e Paquistão). Mesmo considerando os estímulos vingativos, entretanto, o fato é que Osama Bin Laden continua vivo algures, e nada garante que ele permanece um barbudo magro, enrolado em panos, comendo mingau numa caverna.

Saddam Hussein, por sua vez, está preso. Mas agora os inimigos são oriundos de variadas facções locais, inclusive desafetos do ex-ditador. Somos levados a imaginar o tamanho do problema que os EUA encontrariam se o Iraque tivesse os recursos materiais de vinte anos atrás. Isto não aconteceu graças à sistemática destruição do respeitável poderio bélico iraquiano, durante os quatro governos anteriores, o que demonstra a grande importância conferida ao sucesso desta invasão. A estratégia não previa qualquer possibilidade de fracasso, talvez nem de uma vitória relativa. Desde sua descarada imposição à vontade mundial, a operação foi engendrada como um triunfante passeio da máquina civilizadora.

Novamente a quimera se transformou em pesadelo, a começar pelo desmascaramento das mentiras diplomáticas que pretextaram a invasão. A guerra civil se torna cada dia mais sangrenta e incontrolável. Atentados ocorrem em regiões antes consideradas imunes. A ocupação está cobrando um preço que os próprios oficiais repudiam: o contingente humano triplicou mas continua insuficiente, as baixas passaram de mil e os soldados, apesar de voluntários e profissionais, dão constantes demonstrações de esgotamento, despreparo e insubordinação.

Diante da impossibilidade de um recuo dos protagonistas, seu isolamento parece conseqüência inevitável. Em qualquer país da Europa, inclusive no Leste pós-soviético, o sentimento anti-americano é uma das poucas concordâncias intactas e se tornou espécie de padrão ético entre os jovens. O horror da opinião pública mundial diante das injustificáveis mortes civis de todas as nacionalidades anuncia um futuro afastamento dos governos aliados a Washington, ameaçados por castigo eleitoral como o ocorrido recentemente na Espanha.

As pretensões geopolíticas norte-americanas se aproximam de um fracasso cujas proporções antecipam profundos questionamentos dos paradigmas que compõem a mitologia das potências mundiais. Infelizmente, segundo a dinâmica das tragédias históricas, esta possibilidade inspira mais temor do que alívio.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Caros Amigos
Revista Caros Amigos