Putrefação ideológica
A mobilização do jornalismo brasileiro contra o cancelamento do visto de Larry Rohter foi até previsível, mas escancarou motivações que se encontravam relativamente dissimuladas. Quase todos os comentaristas, inclusive intelectuais respeitados, forneceram uma lamentável demonstração de partidarismo cego e provinciano, que só desfrutou de ilusória unanimidade porque as opiniões dissonantes foram abafadas.
As invenções
de Rohter receberam todo suporte necessário para se concretizarem.
Não havia preocupação nacional com o “hábito
de bebericar do presidente”, mas a própria repetição
do disparate impregnou-o no imaginário popular. A grande repercussão
do caso, computada como erro do Planalto, seguiu estratégia semelhante:
embora muitos afirmassem que o texto deveria ter sido ignorado, estranhamente
lhe concederam destaque insistente. Fingiram-se escandalizados pela punição
esboçada contra um estadunidense que cometera difamação
e injúria, violando prerrogativas diplomáticas básicas,
e aproveitaram para relativizar agressões desferidas à reputação
e à dignidade de um chefe de
Estado.
Nos apelos que se pretendiam
libertários predominou um temor jeca pela imagem do país, como
se as potências ditas “democráticas” tratassem estrangeiros
a pão-de-ló. Chegou-se à idiotia de louvar a liberdade
de imprensa nos EUA, omitindo a recente expulsão de um correspondente
iraquiano, funcionário da ONU, visto como “perigoso para a segurança
nacional”. O desmoralizado New York Times, ainda marcado pelo escândalo
Jason Blair, que passou anos escrevendo matérias plagiadas e mentirosas
com respaldo dos superiores, recebeu ares de grande baluarte jornalístico.
E eis que esse obscuro Larry Rohter, suspeito
de ligações com o Departamento de Estado, apologista do governo
FHC e conhecido propagador de insultos em toda a América Latina, continua
desfrutando de nossa cordial hospitalidade.
Mas a gritaria subserviente ajudou a encobrir uma questão fundamental: o que levou um dos mais influentes jornais do mundo, teoricamente preocupado com o resgate da credibilidade, a publicar texto calcado em fontes patéticas, escancaradamente falso e ofensivo, alardeando que o Brasil é presidido por um pau-d’água caricato e trapalhão? O fato de ninguém ter coragem de aprofundar esse debate esclarece muito sobre a corrupção do pensamento político no país. Estamos vulneráveis a qualquer excremento da prepotência internacional, às mais vexatórias pressões e sabotagens, apenas porque uma súcia de mal-intencionados decidiu espinafrar o governo a qualquer custo.
Qualquer inteligência mediana notaria que não se tratava de uma inexpressiva fofoca de tablóide, especialmente no auge da querela brasileira contra os subsídios agrícolas internacionais (300 bilhões de dólares por ano), que atingiu financiadores da campanha de Johnny Walker Bush e provocou uma série de documentários, exibidos por canais franceses e alemães, atacando as condições de trabalho nas usinas brasileiras de cana-de-açúcar. Aliás, o retrospecto nos confere motivos suficientes para acompanharmos com extrema cautela a atual missão de paz no Haiti, pois está em jogo um eventual assento no Conselho de Segurança da ONU, triunfo inédito que a Casa Branca repudia.
Bastou Lula cogitar algum sucesso e ventos tenebrosos surgiram no horizonte. Alguém falou em autoritarismo?