Sorria, você está sendo humilhado

Evito considerar meu azar com os bancos como um sintoma de paranóia; é cômodo manter grana guardadinha num lugar fisicamente apropriado e mais prático ainda se nesse lugar não se encontra toda a grana de todo o mundo. Mas o assunto é vasto e o incidente que nos traz às agências bancárias merece ser despojado de interpretações metafísicas.

Acontece que fiquei preso na maldita porta giratória. Uma voz me pediu para colocar os objetos metálicos no compartimento. Coloquei o molho de chaves. Saí. Empurrei a porta e me enfiei numa vaga. Travou (vacinado, não tomei o vidro na cara, como acontece a alguns afoitos). A voz mandou colocar os outros objetos na portinha. Enfezado, meti toda a pasta pela abertura. Mas a voz insistiu que eu tirasse as coisas da pasta; teria, talvez, alguma bomba. Peguei o maço de cigarros, chaves diversas, o celular, moedas, canetas e joguei na bandeja. Saí. Empurrei a porta, girou, travou. Comecei a urrar; veio o sentinela, mão no coldre, queria mais metal. Ergui a camisa, mostrando ao respeitável trabalhador uma barriga peluda e a fivela do cinto. Ou seria a armação dos óculos? Uma obturação? Claro, como a maioria dos incautos, me submeti às torturas do sádico fardado.

Mas como funcionam essas portas giratórias? Elas travam a qualquer presença metálica e destravam quando o segurança aperta o botão num aparelhinho escondido. Oras pipocas, sabemos que não se pode revistar todas as bolsas, sacolas, mochilas, valises, bolsos e bonés que visitam bancos, em primeiro lugar porque a vida urbana entraria em colapso e também porque a bengala do velhinho, a cabeleira do rasta, a cadeira de rodas, a barriga da grávida e a corcunda do corcunda não podem ser remexidos à toa. Ou seja: funcionários de banco detêm poderes seletivos para violar as intimidades que julgam “suspeitas”. Não importa se o critério é étnico, religioso, estético ou paranormal - trata-se de discriminação, violação da intimidade e constrangimento ilegal.

Querem nos fazer acreditar que disso depende nossa própria segurança. A quem eles pensam que enganam? Instituições bancárias acumulam os maiores lucros da economia nacional, às custas de tarifas e juros escorchantes, e nos retribuem com funcionários cínicos e obtusos que transformam contribuintes inocentes em bandidos potenciais. E brindam-nos com dois ou três caixas para atender a dezenas de trabalhadores, criando o inadmissível suplício da “fila para pagar conta”.

Se atentarmos à forma vexatória com que os cidadãos honestos são tratados nos estabelecimentos comerciais, cartórios e repartições em geral, descobrimos que preceitos outrora intocáveis foram transformados em luxos demodês. O feliz transcorrer dos negócios exige que se enterre não só a educação, mas também a decência. A nossa decência.

Certa vez, parado num congestionamento, assisti a enorme algazarra na frente de uma agência de banco. Transeuntes se acotovelavam para apreciar os seguranças retirando da roleta um jovem de cueca. Aquele rapaz seminu, levando as roupas para se vestir na calçada, me deixou estupefacto. Se o coitado não pagasse sua conta, seria considerado inadimplente e cairia nas garras do Serasa, esta excrescência autoritária vergonhosa. Mas depois me ocorreu um consolo: talvez, no dia seguinte, ele tenha resignadamente voltado à agência. Desta vez... sem cueca.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos