As liberdades segundo tio Sam
O governo Bush tenta parecer responsável pelas chamadas “aberturas políticas” em andamento nas regiões mais conturbadas do planeta. Comentaristas acríticos comemoram essas vitórias de araque, mas a dura realidade não autoriza qualquer otimismo.
Quando Hosni Mubarak, o despótico presidente do Egito, admite realizar eleições livres, trata-se das mesmas reformas que finge empreender desde pelo menos os anos noventa, mantendo o país em permanente estado de emergência, sob uma lei marcial que silencia a imprensa e garante o banimento de partidos e dissidentes. A Síria anunciava a retirada de suas tropas do Líbano meses antes do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri ser assassinado. O desgaste da longa ocupação ficou evidente nas reações populares que se seguiram, mas o Hizbollah respondeu reunindo cerca de meio milhão de manifestantes em Beirute, mostrando o imenso poder desta agremiação extremista, inimiga de Israel e dos EUA e historicamente alinhada a Damasco.
A Arábia Saudita é governada pela família Abdulaziz desde o início do século passado. Os partidos políticos são proibidos e a rotatividade do poder é um delírio. As festejadas “eleições” em curso excluem as mulheres, apenas alguns vereadores serão escolhidos pelo voto e mesmo dentre os eleitores registrados a participação tem sido pequena. Apesar do sistema liberal vigente no Kuait, a autoridade do emir sobre todas as instâncias da administração é total e inquestionável. Os governos de Bahrein, Qatar, Omã e Emirados Árabes Unidos também são controlados por algumas famílias poderosas, que dominam os meios de comunicação e repudiam a participação popular.
Nem mesmo onde tiveram ingerência direta os EUA deixaram um legado satisfatório. A Somália vive uma sangrenta guerra civil desde 1994, quando as tropas norte-americanas fugiram das turbas ensandecidas. A escolha do presidente somali, Abdullah Yusuf, teve de ocorrer no Quênia, onde ele e seu séquito continuam exilados. A vitória de Hamid Karzai no Afeganistão foi denunciada como irregular por catorze dos dezoito candidatos e o pleito para composição do parlamento tem sido sucessivamente adiado por falta de condições que garantam sua lisura. Denúncias de fraudes e altas abstenções também marcaram as eleições no Iraque ocupado.
Afirmar que marines espalham
liberdades é uma sandice tão grave quanto julgar George W. Bush
baluarte universal da democracia (e ele foi empossado graças a uma
manobra jurídica, sem ter recebido a maioria dos votos). O mundo não
precisa da polícia norte-americana. Os EUA são um histórico
defensor de regimes ditatoriais, tentaram recentemente derrubar o presidente
legítimo da Venezuela, praticam e incentivam a tortura de prisioneiros
e desprezam anseios populares para impingir-lhes os interesses de empresas
e bancos. Qualquer governo pode ser considerado “democrático”
segundo as conveniências do projeto
hegemônico estadunidense, e alguns não precisam sequer fingir.
É o caso dos países do Golfo Pérsico, onde uma eventual
abertura política poderia dar vazão ao intenso anti-americanismo
ali reinante, ameaçando o acesso às reservas petrolíferas.
Bush e sua fábrica de violências não têm nada a ver com a verdadeira democracia. Pelo contrário, a temem. Se as liberdades civis triunfarem onde hoje predomina a tirania, terá sido apesar dos EUA e não graças a eles.