As origens do retrocesso
A eleição de Severino Cavalcanti como presidente da Câmara dos Deputados evidenciou finalmente a incompetência da articulação política do governo. Há meses as personalidades inconciliáveis de José Dirceu e Aldo Rebelo travam permanente disputa pelo mesmo espaço. Os acordos com as lideranças partidárias sempre resultaram fracos, atendendo a demandas localizadas e privilegiando figuras traiçoeiras. O Executivo operou de forma centralizadora e autoritária. Permitiu que a ausência de representatividade levasse ao isolamento e à desagregação, dando fôlego para uma dissidência obscurantista.
Isso transforma Lula, José Genoino, Luiz Eduardo Greenhalgh ou todo o Partido dos Trabalhadores em “culpados”, como querem os comentaristas de inclinações ideológicas mal disfarçadas? Não. Estão distorcendo os fatos. Ninguém é eleito com erros alheios, mas com votos. Cavalcanti venceu porque 300 oportunistas votaram nele, simples assim. Os deturpadores querem nos fazer acreditar que, sozinha, a patética inaptidão governamental para o sucesso operou o milagre do preenchimento de cédulas. Querem desviar nossa atenção do vergonhoso papel desempenhado pelas bancadas de PMDB, PFL, PP, PSDB e PDT. Até bem pouco tempo atrás, o PT sabotava o futuro da nação por interesses primários. Agora que legisladores remunerados pela população protagonizaram um espetáculo de atraso e cinismo, protegidos pela vergonhosa excrescência do voto secreto, a culpa é do governo.
Os apoiadores de Cavalcanti estavam imbuídos de duas motivações, abertamente confessadas. Para muitos, a questão era golpear a reeleição de Lula no ano que vem, desmoralizando-o e contaminando o final de seu mandato - e o regozijo público dos políticos do PSDB diz muito sobre a “oposição construtiva” que sempre defenderam. A grande maioria, entretanto, queria simplesmente reestabelecer o fisiologismo como prática dominante do cotidiano parlamentar. Jornalistas que nos consideram imbecis podem alucinar à vontade para justificar o deplorável comportamento dos deputados. Não importa. “Insatisfação com o atendimento dado pelo Planalto” é apenas um eufemismo para o tradicional desejo de extrair benefícios tenebrosos através de chantagem.
Mas não foi apenas a administração federal que saiu derrotada nesse processo. O imenso esforço político e o sacrifício social que a sociedade brasileira suportou para ensaiar minúsculos passos na direção de uma agenda progressista estão prestes a virar cinzas. Um correligionário fiel de Paulo Maluf controlará o funcionamento do Legislativo com dotação financeira astronômica, nomeará ministérios e pode virar presidente da República. Um dos quatro cargos mais importantes da nação é agora ocupado por figura emblemática do conservadorismo populista, com passagens por UDN, Arena, PDS, PDC, PL, PPR e PFL, aliado do regime militar, assumidamente retrógrado, perseguidor de religiosos atuantes em movimentos sociais, combatente da legalização do aborto (mesmo em casos resultantes de estupro ou com risco de vida para a mãe), da união civil entre homossexuais, das pesquisas com células-tronco e de sabe-se lá quais outras conquistas modernas da sensatez humana.
Eis desnudado o esqueleto da democracia nacional em sua dura realidade. Dói apenas perceber que, analisado em retrospecto, tamanho desastre era espantosamente previsível.