Guilherme Scalzilli

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Doutrina da obsolescência

A entronização do papa Bento XVI só pode ser compreendida analisando-se o desenvolvimento da Igreja desde o Concílio Vaticano Segundo, iniciado por João XXIII em 1962 e finalizado por seu sucessor. Palco de ferrenha disputa entre conservadores e reformistas, o concílio visava adequar a teologia às exigências dos novos tempos, estabelecendo transformações que favoreciam a liberdade religiosa, a popularização dos cultos e a atuação dos clérigos em questões sociais e políticas. Paulo VI (1963-1978) incumbiu-se de apaziguar os ânimos exaltados; viajou muito e tentou preservar a postura tolerante de João XXIII, mas foi sufocado pelas pressões internas. Seguiu-o João Paulo I, que morreu em circunstâncias misteriosas, apenas um mês depois de eleito.

O longo pontificado de João Paulo II operou na contramão das conquistas revolucionárias que ele mesmo defendera no concílio. Fervoroso anticomunista - sua dedicação a Nossa Senhora de Fátima era uma herança do imaginário da Guerra Fria -, combateu os regimes soviéticos através das igrejas locais e foi inspirador do sindicato polonês Solidariedade, inclusive concedendo-lhe aporte financeiro. Seu conservadorismo remetia às concepções da Opus Dei, ordem reacionária, de atuação controversa, que salvou as finanças do Vaticano com um investimento bilionário e depois recebeu diversas benesses do pontífice.

ltramontanista avesso a concessões, acreditava na sua primazia central e absoluta sobre todos os assuntos da Igreja. Tomou decisões impopulares, condenando radicalmente os métodos contraceptivos (em plena epidemia de Aids), o fim do celibato, a ordenação de mulheres, a união homossexual, as pesquisas com células-tronco, etc. Mas também soube preservar habilmente a própria imagem: singrou o planeta como líder carismático e abusou de gestos marcantes, ou talvez apenas populistas, como beijar o chão dos aeroportos. Enquanto isso, o cumprimento de seus cruéis desígnios ficava a cargo da inquisitória Congregação para a Doutrina da Fé, liderada pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger e responsável por perseguir e silenciar centenas de teólogos reformistas.

A recente eleição de Ratzinger assemelha-se, portanto, a uma compensação pelos duros serviços prestados durante o pontificado de seu antecessor. Trata-se de uma saída previsível para o conclave, pois o escolhido tem personalidade discreta e idade avançada, favorecendo um papado transitório, sem percalços, que defina as diretrizes a serem seguidas no futuro. Quanto às suas inclinações dogmáticas, basta seguir as referências do título por ele escolhido. São Bento de Núrsia (cerca de 480-540) defendia a reclusão monástica, a rigidez disciplinar e o respeito à hierarquia como antídotos contra períodos conturbados.

Bento XVI é o produto mais radical da reação conservadora que há quarenta anos opera para neutralizar os avanços do último concílio. Mas talvez represente o estágio final desse retrocesso, pois a insensibilidade social, o autoritarismo e o alheamento político são incompatíveis com uma dinâmica histórica que exige responsabilidade e comprometimento. Acreditando preservar-se das sujeiras mundanas, a Igreja Católica comete equívocos irreparáveis e aumenta o fosso de seu arcaísmo. Apenas uma atualização dogmática abrangente poderá recuperar a legitimidade perdida por décadas de obscurantismo.

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