A estratégia do diálogo
Diante da ameaça terrorista em escala planetária, os governos democráticos precisam redimensionar sua postura diante do problema. Não bastasse vitimar as sociedades com estupidez inexplicável, o terrorismo se transformou em pretexto para todas as formas de coerção e charlatanismo. Antagonistas políticos locais, adversários de regimes opressivos, brutamontes contratados para matar presidentes e quadrilhas de saltimbancos ordinários, sejam motivados por fundamentalismos apocalípticos, causas étnicas ou nacionalismos, todos podem ser indiscriminadamente massacrados em nome da “guerra ao terror”. E assim Bush assassina quem quiser no Oriente Médio, Putin no Cáucaso e Sharon na Palestina.
A acepção cotidiana das motivações terroristas está vinculada à interpretação hegemônica dos acontecimentos, geralmente simplista. O radicalismo islâmico do tipo wahabita, grande vilão da atualidade, não está na origem de tudo. Pode motivar a Al Qaeda, o Fatah, o Hamas, o Grupo Islâmico Armado argelino, o Jemaah Islamiah indonésio e o Abu Sayyaf filipino, mas não o ELN e as Farcs na Colômbia, o ETA na Espanha, o 17 de Novembro grego ou os Tigres Tâmeis do Sri Lanka, embora todos recebam o mesmo rótulo conveniente.
A imprensa cumpre papel lamentável nesse processo. Privilegia o sensacionalismo, forjando contextos e omitindo dados importantes. Espalha que o financiamento do terror parte apenas de fontes clandestinas, ligadas ao crime organizado, esquecendo que muitos frequentadores de banquetes se locupletam com a destruição de países inteiros. Quando surgiram fortes suspeitas de que as explosões nos prédios de apartamentos em Moscou (1999) foram provocadas por agentes do próprio serviço secreto russo, os jornalistas se calaram.
Mesmo a denúncia pode ter sua utilidade no circo imagético. As cenas de tortura em Bagdá nos causam ânsias, mas para diversos mercados soam como demonstração de força, pragmatismo implacável na linha Dirty Harry. Os frios analistas que vomitam “não se negocia com terroristas”, identificando uma pretensa tolerância da esquerda em relação a movimentos armados, defendem sua forma particular de extremismo. Mostram cruel desdém pelo sofrimento humano e estabelecem uma bipolaridade maniqueísta, obrigando-nos a aceitar suas teses incondicionalmente, sem recuos, mesmo que depois a farsa seja desmascarada.
Chegou a hora de assumir que ninguém é capaz de vencer o terrorismo utilizando suas armas. Insensatez, destruição generalizada e desprezo pela vida constituem instrumentos de imbecis, não importa se as vítimas são nova-iorquinas, madrilenhas ou as multidões de miseráveis anônimos que se reproduzem nos esgotos da Terra. A idiotia que vitimou Bali e Moscou em 2002, Istambul em novembro de 2003, Madri em março e Beslan em setembro de 2004 é a mesma que dizimou Grozni em 1999 e Fallujah meses atrás. Bush, Putin, Sharon e Osama se equivalem enquanto assassinos de civis inocentes.
O ciclo genocida se alimenta
da intransigência. Prédios destruídos, milhares de mortes
e sentimento de impotência e revolta representam tristes sintomas da
incapacidade mundial de domesticar os facínoras desvairados de todas
as culturas. Esta vergonha só será interrompida quando prevalecer
a tática da negociação, e a comunidade internacional
tiver o bom-senso de reconhecer a legitimidade de certas reivindicações
“extremistas”.