O golpe escancarado
As CPIs transformaram-se em espetáculos de oportunismo eleitoral e resultarão juridicamente inócuas. Os ataques ao PT são insuflados para abalar o partido antes das sucessões estaduais em que despontava como favorito. Políticos da base aliada distanciam-se do governo com medo do contágio nas próximas eleições e os dissidentes utilizam as câmeras para justificar seus afastamentos de outrora, encenando catarses vingativas que lhes incrementem a popularidade. PSDB, PFL e PMDB desempenham o papel que se espera de partidos identificados com a corrupção e o desastre administrativo: sempre beneficiados pela impunidade, aproveitam agora para reconstruir reputações.
Os esquemas fraudulentos permanecerão intocados porque acusadores, réus e testemunhas são suspeitos e vomitam dados inconsistentes. Poucos indícios relevantes tiveram suficiente comprovação e os atentados contra as reputações de inocentes cessarão assim que aparecerem os primeiros processos por danos morais. É um teatro de hipocrisias. Repete-se diariamente a coreografia da moralidade, mas absolutamente ninguém no Congresso a deseja. Políticos honestos de fato divulgariam as contas de todas as eleições que disputaram e forneceriam relatórios abrangentes de suas atividades parlamentares, incluindo os dados de assessores e indicados para cargos em estatais. Políticos honestos de fato abandonariam essa patética retórica do horror patriótico, que só faz sabotar a administração federal, e concentrar-se-iam na elaboração das reformas urgentes de que o país necessita. Políticos honestos de fato trabalhariam de fato.
Mas o verdadeiro combustível da conspiração em andamento vem de fora da tragicomédia legislativa. Vem dessa campanha publicitária em larga escala, disfarçada de jornalismo, que propaga as mentiras fabricadas nas CPIs, as bravatas dos conspiradores e o veneno conturbador dos rancorosos. As tentativas de contaminar todo o PT através das eventuais ilegalidades de alguns dirigentes visam manchar uma trajetória inigualável de lutas e conquistas, arruinando as carreiras de políticos probos e representativos. Arrastar o PT à vala comum da indecência, fazendo-o parecer idêntico a qualquer outro partido, é uma estratégia para desmobilizar a militância e embasar as cassações que a farsa exige, oriundas de conveniências e julgamentos ideológicos. A insistência nas absurdas comparações de Lula com Collor e nas discussões sobre a viabilidade de um novo impedimento desmascaram a índole antidemocrática dessa imprensa que poupou FHC durante os incontáveis escândalos de seus governos.
A conspiração chega à fase de tentar legitimar-se junto à opinião pública, canalizando a ingenuidade do eleitorado para uma onda de manifestações contrárias à permanência de Lula no poder. O objetivo final dessa campanha é isolar o presidente, criando condições políticas para a efetivação de um golpe parlamentar, mas será satisfatoriamente atingido se Lula chegar a 2006 sem a enorme popularidade que desfruta.
Aproxima-se o momento mais conturbado da redemocratização brasileira. A esquerda, que deveria utilizar as intempéries do exercício do poder para transformá-lo enquanto possui instrumentos legítimos, foi encurralada pela astúcia dos adversários. Está prestes a ser dizimada pelas próximas décadas e não sabe como reagir.
Mede-se a ameaça pela imprevisibilidade de suas conseqüências.