Os cúmplices de Edilson
O recente escândalo de arbitragem impingiu uma desmoralização histórica à crônica esportiva nacional. O embaraço resultante, não fosse patético e muito bem-vindo, soaria comovente: alguns pobres-diabos estragaram deliberadamente um número incerto de partidas, envolvendo os maiores clubes do país, e ninguém foi capaz de impedi-los.
Apesar de emblemático, o vexame nada tem de surpreendente. Edilson Pereira de Carvalho e Paulo Danelon são subprodutos da irresponsabilidade desses mesmos gênios do ludopédio, que sempre alimentaram a cultura da impunidade e agora vestem a fantasia da indignação. Muitos, inclusive, apoiaram a absurda repetição de jogos, esquecendo que um STJD legítimo e independente puniria a CBF de forma exemplar, com multa proporcional à gravidade do ocorrido e suficiente para prevenir reincidências.
A reação da imprensa, além de tardia, está carregada de cinismo. Todo campeonato é manchado por arbitragens tendenciosas. Juizes e auxiliares atuam impunemente como crupiês do viciado cassino futebolístico - não há atividade remunerada com semelhante responsabilidade que desfrute de tamanha tolerância, nem modalidade esportiva tão aberta à manipulação de resultados. Muito se deve a Ricardo Teixeira, Nabi Abi Chedid e Luiz Zveiter, que controlam os bastidores do futebol, ao famigerado José de Assis Aragão, que preside a associação de árbitros e aos marqueteiros, puxa-sacos e bairristas preconceituosos que dominam as redações. Mas a questão central permanece: como uma absurda sucessão de irregularidades, cometidas sob constantes protestos de torcedores e clubes lesados, passou despercebida mesmo a uma minoria conseqüente de comentaristas, que possuem conhecimentos, meios técnicos e espaço para denunciá-las?
O fato é que se omitem porque não querem (ou não podem) questionar a legitimidade das conquistas de times populares, politicamente fortes, que lhes fornecem notícias, audiência e anunciantes. Para aliviar reputações e consciências, justifica-se a passividade através de um subjetivismo permissivo que protege a livre interpretação do juiz, soberano cuja falibilidade humana o faz inquestionável mesmo no erro. E é justamente a relativização do delito que tenta fazer de Carvalho e Danelon casos isolados, inocentando figuras como Héber Roberto Lopes e dezenas de notórios sacripantas do apito. Equivale a afirmar que prejuízos irreparáveis ocorrem apenas quando alguém age visando suborno, não por pressão de dirigentes ou pinimbas pessoais.
O jornalismo idôneo não depende apenas de gravações telefônicas para diagnosticar a má-fé. Veículos capazes de aferir passes, dribles e defesas podem perfeitamente utilizar a arma implacável da estatística para fiscalizar a atuação dos árbitros com o rigor que merecem. Bastaria contabilizar os “erros” dos juizes e auxiliares, desde pênaltis e impedimentos a deslizes mais sutis (e não menos decisivos), envolvendo escanteios, faltas, laterais, cartões. As informações seriam colhidas por observadores locais, imunes ao protecionismo vigente. O cruzamento de dados geraria um ranking, iluminando padrões individuais de atuação e tendências de favorecimento por clube. Tal controle pode soar excessivo, mas transparência que não assusta é inútil. Aqueles que fogem de soluções incômodas, refugiando-se no conforto do idílio desportivo, depois fingirão surpresa diante do óbvio.