Guilherme Scalzilli

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São todos responsáveis

Desde que feneceram as aventuras totalitárias do século passado, todo organismo de aspiração socialista que reconhece a inevitabilidade do sufrágio vê-se diante de embaraço semelhante: como conciliar o discurso moralizador com a brutalidade das batalhas eleitorais e, depois, plataformas inovadoras com realidades institucionais viciadas e avessas às mudanças? O conflito entre estratégias de atuação política é inerente ao cotidiano da militância progressista e necessário à Democracia. O planeta fica menos obtuso quando pragmáticos e idealistas digladiam-se.

Atualmente, contudo, o constrangimento dos acusados, o oportunismo dos adversários e a manipulação da mídia transformam o embate em coro uníssono de histeria e maniqueísmo, que puristas afoitos inadvertidamente engrossam. O alegado silêncio da intelectualidade durante a crise apenas denuncia que as posturas destoantes encontram-se afastadas do debate. Salvo as poucas exceções, toleradas para legitimar esse cerceamento, o teor das análises divulgadas pela imprensa restringe-se a um desapontamento homogêneo, empobrecedor, que acaba servindo de sustentáculo ideológico para a campanha de desmoralização do governo Lula.

Os que empurram o debate ao movediço terreno da ética “esquecem” que, submetido aos critérios de uma correção moral e jurídica absoluta (portanto impossível), o edifício representativo ruiria, pois a esmagadora maioria dos ocupantes de cargos eletivos seria passível de cassação - inclusive muitos desses defensores da probidade total, que se pensam heróicos ao imolar seus aliados, mas apenas praticam a pior forma de oportunismo, destruindo árduas conquistas por quimeras irrealizáveis. É evidente que a predominância da esperteza não redime qualquer ilicitude, porém ajuda a evidenciar que uma tênue membrana separa o delírio e a hipocrisia.

Antigos militantes ligados à luta armada abundam entre os adeptos do pragmatismo de esquerda porque a experiência ensinou-lhes que o cruel cotidiano das disputas pelo poder não admite culpados e inocentes, apenas vencedores e derrotados. Embora as piores arbitrariedades sejam cometidas utilizando esse pretexto, a interdependência entre meios e fins sobrevive como um dos aspectos fundamentais da luta política. “Projetos de governo” só se justificam enquanto vislumbram sua hipotética implementação; caso contrário, viram proselitismo e perdem o sentido. Há algo de passivo, para não dizer omisso, na intransigência petrificada que se conforma em apenas observar o exercício do poder, perecendo no limbo da verborragia irrealista. Pode-se louvar um administrador que, por rigidez de princípios, aceite ver seu governo fracassar; mas é igualmente cabível afirmar que essa postura conota inabilidade e resulta institucional e politicamente deletéria.

A dolorosa tarefa de defender o pragmatismo faz-se urgente muito menos por seus méritos intrínsecos do que pela necessidade de insuflar o contraditório, interrompendo a imposição desse consenso artificial e temerário, tão ineficaz quanto incoerente. A esquerda só sairá da estupefação inerte quando resgatar a força transformadora da controvérsia. Desunidas e avessas ao debate, tristemente semelhantes, as facções perecerão abraçadas - não apenas na implacável derrota eleitoral que se avizinha, mas também na responsabilidade pelo conseqüente retrocesso.

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