Tirem as patas do meu torresmo
Sabemos que as forças opressoras, incapazes de reinar sobre as vastidões imprevisíveis da mente humana, preferem agir em primeiro lugar sobre a vulnerabilidade física. Em suma, controlam o indivíduo através de seu corpo. Regimes de exceção costumam usar o cerceamento da liberdade e a ameaça de dores, seqüelas e humilhações, mas a ação sobre os organismos não está restrita a violências evidentes. Mesmo na simpática democracia brasileira assistimos a exemplos de idiotia repressiva, com consequências similares: exames de sangue em candidatos a emprego, proibição de bebidas alcoólicas em estádios, veto ao fumo em bares e casas noturnas, toques de recolher, restrições à propaganda de diversos produtos.
Não permitamos que a discussão recaia na simplista reafirmação do malefício provocado pelas substâncias envolvidas. Tampouco abracemos o argumento (verdadeiro, porém estéril) de que grande parte dos prejuízos físicos citados são apenas estatísticos. Reflitamos, desta vez, sobre as liberdades fundamentais que estão sendo soterradas em nome do “nosso próprio bem”.
Alguém pode ser proibido de utilizar qualquer substância, mesmo consciente do dano à sua saúde? Até que ponto um legislador, eleito por cinco ou dez mil incautos, pode decidir o que milhões de pessoas vão fazer com seus pulmões, neurônios e fígados? Quem sabe o que é melhor para mim?
Mentem aqueles que acenam com uma inocente defesa da saúde pública. Os recentes ataques à indústria do tabaco são originados no fiasco da legislação anti-drogas, inventada nos EUA, assim como a injustificável proibição da maconha havia surgido com o fim da Lei Seca. Impedir que eventos artísticos e esportivos sejam financiados pela indústria do tabaco ou do álcool é uma forma de abrir mercados a outros conglomerados igualmente poderosos. A eficácia das inúteis campanhas governamentais só é defendida pelas próprias agências de publicidade, que enriquecem com esses contratos públicos (e não conheço sequer um felizardo que parou de fumar porque os maços de cigarro estampam fotos horrorosas).
echar bares às
dez horas é conveniente apenas para órgãos de segurança
acuados, policiais corruptos e políticos dependentes do voto religioso.
Entretanto, não se trata apenas de hipocrisia, mas também de
autoritarismo. Ao fracassarem no provimento de direitos civis fundamentais,
as instituições desmoralizadas partem para a ingerência
burra, no desespero de se provarem úteis e eficazes. Uma sociedade
que reprime não conseguiu educar. Fere liberdades individuais porque
as teme. Envergonhada, cria padrões irreais de comportamento. Apoiada
num salvacionismo ignorante, intervém no direito do contribuinte dispor
de seu próprio corpo, conviver com outros em estabelecimentos comerciais,
consumir os produtos que lhe apetecem, saborear prazeres telúricos.
A utopia do Estado inexistente deu lugar à da individualidade nula. É sintomático que isto ocorra no universo do “politicamente correto”, alimentando a histeria preconceituosa e suas categorias discriminatórias. Fumantes são idiotas, não-fumantes detêm a luz divina. Cof cof. Quem bebe é fraco ou doente, quem não bebe é supimpa. Coma ervas (mas não as fume) para ser bacana. Se você é gordo, coitado, morrerá de sua própria feiúra. Afinal, comer porcaria é suicídio. Pega mal. E, cuidado, logo será crime.