A ira da mídia vilã
A atividade jornalística torna-se ilegítima quando entra em descompasso com o repertório de valores que a justifica e protege. A imprensa jamais será “livre” em sentido absoluto: ela não paira, intocável, acima das instituições democráticas. É apenas uma delas, inserida permanentemente num sistema de contrapartidas éticas e legais cujo equilíbrio determina a harmonia do próprio Estado de Direito. Ademais, o processo que envolve a produção da notícia pressupõe critérios subjetivos (ideológicos) e responde às necessidades materiais de qualquer negócio lucrativo. A tese de que a mídia pode ser independente de paixões e ingerências alimenta uma utopia perigosa, essa falácia original que envenena o cotidiano da profissão. O mito da imparcialidade total serve à propaganda enganosa.
Não surpreende que os órgãos de comunicação recorram a essas duas falsas concepções de liberdade para repelir as críticas à sua lisura. Contra a chamada “vilanização”, escudam-se no cômodo papel de vítimas. Incorporam um simbolismo republicano ultrapassado e simplista para constranger as vozes críticas, brandindo o poder de destruir reputações como argumento de uma chantagem mal disfarçada – “não mexa conosco”. O Judiciário que se mantenha afastado, os agentes públicos que se submetam, o (e)leitorado que se contente, pois a auto-regulamentação e um punhado de discursos morais bastam para isentar os mártires da verdade e da ética.
As grandes corporações midiáticas sempre atuaram sob motivações partidárias, servindo como instrumentos para disputas de poder. A novidade atual, em relação a outras épocas tempestuosas, reside na desesperada tentativa de dissimular um padrão de comportamento que a sensatez denuncia e as estatísticas comprovam. Os profissionais envolvidos mantêm a farsa, muitos por medo de represália e alguns pelo cinismo contraído nas vicissitudes do ofício. Os depoimentos de ouvidores, redatores, colunistas e demais participantes dos raros debates existentes fora da internet exalam o ranço do corporativismo. Mesmo as manifestações veiculadas por fóruns como o Observatório da Imprensa repetem autocríticas cheias de meios-termos, envergonhadas, temerosas de melindrar colegas e patrões. A mentira e a deturpação transformaram-se em acidentes de percurso irrelevantes, pois todos são bons funcionários e a condição humana os redime. Noticiário e publicidade fundiram-se em organismos de aspiração manipuladora que, no final das contas, não passam de produtos destinados à assimilação silenciosa e passiva.
A imprensa tenta se fantasiar de “povo”, mas ela não o representa nem o incorpora. A idéia de que os interesses de empresas privadas são, por associação, os da sociedade civil embute um engodo autoritário. Ninguém possui monopólio sobre prerrogativas constitucionais. Quem define o interesse público é o público, não um punhado de “especialistas” que se julgam infalíveis. O tão aclamado “direito à informação” resume-se, na prática, ao “direito” de selecionar parcelas da realidade e veicular as abordagens mais convenientes a determinadas circunstâncias. Opinião sem contraditório reduz-se a retórica panfletária. As análises que reciclam e difundem os equívocos da cobertura jornalística viram instrumento de alienação. Sigilo de fonte não serve para proteger caluniadores.
A indignação da mídia faz parte de uma campanha para reconstruir o prestígio dos veículos, desmoralizados pelo resultado das disputas eleitorais. Incapaz de manobrar consciências, lutando para recuperar a credibilidade perdida, a imprensa hegemônica busca inimigos que expiem suas frustrações. Enfurecida, desnuda-se ainda mais.