Guilherme Scalzilli

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A vez de Ricardo Teixeira

Contrariando a imensa maioria dos aficionados por futebol, jamais alimentei ilusões quanto à seleção brasileira. E não temo que o derrotismo retrospectivo soe oportunista: suportei pacientemente a pecha de antipatriótico, enquanto praguejava contra aquele timeco que todos incensavam. Pois, se o fiasco parece razoável agora, à luz dos acontecimentos, dois meses atrás era absolutamente previsível.

O “jornalismo” esportivo, alucinado de otimismo tolo, contribuiu para o agravamento do vexame. Quem tivesse migalhas de senso crítico perceberia as absurdas incongruências do time. Que qualidades distinguem Parreira e Zagallo (fora pintar marinas ou professar a numerologia) de outros, digamos, quinze treinadores em atividade no país? Rogério, Júlio César, Lúcio, Juan, Luisão, Cris, Emerson, Ricardinho, Adriano e Fred são realmente os melhores jogadores brasileiros nas suas respectivas posições? A decadência de Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo não era evidente pelo menos desde a última temporada européia? De que serviriam os amistosos contra adversários insignificantes e aqueles treinos patéticos, utilizando meio campo e um punhado de cones?

A surpresa com que muitos receberam a derrota precoce é sintoma de contaminação pelo verde-amarelismo. Nada mais enganador (e irritante) que essa presunção de grandiosidade, esse favoritismo sempiterno que canaliza a combalida autoestima nacional e ao mesmo tempo justifica o desprezo por tudo aquilo que, apesar de brasileiro, não é futebol. A conquista de um campeonato soa como prêmio de consolação que reconhece nossos valores intrínsecos (devemos ser bons em alguma coisa), apesar das inadmissíveis tragédias cotidianas. A sublimação do orgulho ferido levou à triste arrogância que alimentava nosso suposto favoritismo, como se estivéssemos fadados ao primor futebolístico, acima de todas as circunstâncias, graças apenas à imagem fantasiosa que fazemos de nós mesmos.

Privilegiando estrelas internacionais, a comissão técnica desprezou milhares de atletas profissionais que perderiam vísceras, comendo pão com ovo em albergues, para representar seu país num espetáculo mundial. A cegueira patriótica serviu justamente para conferir respaldo popular a um empreendimento que jamais privilegiou a competição esportiva. O cerne do time resumiu-se a um punhado de garotos-propaganda enfadados com as próprias notoriedades, ex-craques intocáveis em seus postos por determinação de agentes e anunciantes. Montados nos dividendos das campanhas publicitárias, os gângsters do futebol nacional julgavam que a retórica do pragmatismo na linha “bonito é vencer” contemplaria a sanha triunfalista, como ocorreu em1994 e 2002. Felizmente não deu certo.

Aproveitemos a decepção generalizada para impedir que Ricardo Teixeira e asseclas perpetuem seu maléfico reinado, antes que a Copa de 2014, a ser realizada no Brasil, vire escândalo muito pior. Chega de cumplicidade com o cínico rouba-mas-ganha da cartolagem e de seus “tecnicocratas”. A imprensa esportiva precisa ocupar o vácuo deixado pela omissão do Poder Público e abdicar dessa imaturidade falsamente puritana que evita assuntos espinhosos, balbuciando “vamos falar de futebol” para mudar de assunto. Que utilize o abundante material investigativo à disposição para constranger publicamente candidatos a cargos eletivos e dirigentes de clubes e federações. E que aja rápido, enquanto ainda existe uma torcida gigantesca e infeliz, ávida por entender as raízes de seu desapontamento.

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