As ilusões democráticas I
Dentre as mistificações alimentadas pelo chamado neoconservadorismo, talvez a mais perigosamente infundada seja a do triunfo da Democracia como regime de governo contemporâneo por excelência e inexorável ao desenvolvimento das nações. A alegação de que nunca houve tantos governantes empossados através de algum método de sufrágio, embora historicamente plausível, apenas ressalta os limites práticos dessa aparente conquista: cálculos aproximados sugerem que cerca de 3,5 bilhões de pessoas (60% da população mundial) ainda vivem sob variadas formas de totalitarismo.
A estimativa parece tolerável porque associada a algumas nações extremamente populosas, com governos abertamente ditatoriais, ou a redutos de miséria absoluta, institucionalmente rudimentares. Entre a China e o Burundi, entretanto, existem dezenas de países geopoliticamente relevantes, inclusive potências regionais, cujos epítetos regimentais escondem realidades pouco alvissareiras para os preceitos democráticos consagrados.
A Índia, república parlamentarista, mantém a estratificação em castas que perpetua desigualdades, não apenas sociais, mas legais e eleitorais. O vizinho Paquistão é governado pelo general Pervez Musharraf, que se “elegeu” graças a manobras jurídicas e ao exílio de Benazir Bhutto, sua principal antagonista. O ditador egípcio, Hosni Mubarak, há mais de duas décadas no poder, controla rigidamente a Suprema Corte e a Comissão Eleitoral. Os gigantes petrolíferos do Golfo Pérsico sequer dissimulam suas autocracias; mesmo nas raras oportunidades em que o fazem, os resultados são constrangedores, como a vitória dos wahabitas na Arábia Saudita. A África é prodigiosa em líderes dados à perseguição de opositores: Meles Zenawi (Etiópia), Paul Kagami (Ruanda), Isaias Afwerki (Eritréia), Yoweri Museveni (Uganda), Idriss Deby (Chade). Nos Balcãs pós-genocídio, o ultranacionalista Partido Radical sérvio retomou o poder e Kosovo tem como primeiro-ministro um suspeito de crimes de guerra (Ramush Haradinaj). Há ainda regiões cuja instabilidade desautoriza qualquer simulacro de escolha popular. Iraque, Afeganistão, Haiti e Sudão, por exemplo, vivem sob guerras civis reais ou iminentes. Nas repúblicas da antiga União Soviética os levantes se sucedem, derrubando governos frágeis – Shevardnadze na Geórgia (2003), Kuchma na Ucrânia (2004), Akayev no Quirguistão (2005) – para substitui-los por similares.
A democracia é
mais periclitante em nações advindas de longos períodos
autoritários que tiveram respaldo das potências mundiais. O final
da Guerra Fria provocou uma passagem meramente formal de regimes despóticos
a economias inseridas no mercado globalizado. Para apaziguar tanto o público
interno quanto a comunidade internacional, o sufrágio virou componente
legitimador de estruturas sócio-políticas viciosas. A diplomacia
unilateralista dos EUA endossa e agrava tal paradoxo, disseminando uma cantilena
pseudo-libertária que utiliza os poderios militar e financeiro ao sabor
de conveniências estratégicas. Carente de ameaças que
a corroborem, a ingerência civilizadora insufla uma reação
popular que, sob motivações étnicas e religiosas outrora
sufocadas, transforma-se em repúdio a valores identificados como norte-americanos.
Eis como o neoconservadorismo, doutrina da hegemonia estadunidense, locupleta-se
do próprio ciclo de intolerância e violência que simula
combater.