Às ruas
A viabilização eleitoral de Geraldo Alckmin resultou de um enorme esforço midiático empreendido nos dois meses que antecederam a votação. Não se reproduziu a histórica propagação de convicções políticas, a partir das classes médias, em direção aos extratos sociais menos favorecidos; mas a conquista (e a gradativa radicalização) de uma minoria articulada, concentrada nos grandes centros urbanos, mostrou-se decisiva para forçar o segundo turno. A própria militância petista esmaeceu, desmobilizada pela presunção de uma vitória fácil e principalmente pelo ceticismo quase apolítico que se apoderou dos eleitores tradicionalmente vinculados à esquerda.
Nem a cúpula peessedebista acreditava nas chances de Alckmin, figura inexpressiva, alçada a incômoda proeminência pela morte de Mário Covas. A estratégia acertada entre FHC, Tasso Jereissati e José Serra visava apenas a manutenção do governo paulista, fundamental para a sobrevivência do grupo. Como se concedessem às insistências do então governador, permitiram seu desgaste numa derrota considerada inevitável, deixando Serra e Aécio Neves em igualdade de posições para preparar os acordos de 2010. Esse tácito equilíbrio de forças relegou Alckmin a segundo plano, perceptível na sua coordenação de campanha e no apoio inconvicto que recebeu dos caciques da própria sigla.
A ostensiva participação da imprensa no processo eleitoral e sua adesão a um candidato inicialmente desacreditado e de frágil identidade partidária são algumas das significativas coincidências entre a atual campanha e a de 1989, que elegeu Fernando Collor. Hoje também vemos a ascensão de um anti-Lula incógnito, surgido dos confins regionais, apoiado na imagem de administrador bem sucedido. Novamente, uma personalidade imprevisível, ideologicamente desconhecida, oferece inovações com propostas vagas e discursos moralistas. Outra vez populariza-se uma entidade política artificial e temerária, fabricada na dissimulação de aspectos negativos da sua biografia.
Defensor da ética pública, Alckmin foi beneficiado pelo engavetamento de setenta pedidos de CPI contra irregularidades em seu governo. Símbolo de competência, geriu o colapso do sistema carcerário no Estado e instituiu programas educacionais que perenizam o despreparo dos alunos. Sua roupagem social-democrata esconde profundas afinidades programáticas com o PFL, manifestas em declarações que negam propostas ancestrais da cartilha peessedebista e constrangem seus mais íntimos correligionários. Aparentemente liberal e moderno, é simpatizante da organização ultraconservadora Opus Dei (organizou encontros noturnos do Opus no Palácio dos Bandeirantes) e, não por acaso, aglutina o apoio de alguns dos piores reacionários da política nacional.
O caráter plebiscitário
conferido pela imprensa ao segundo turno induz a um voto de protesto contra
a administração petista sem elucidar o que de fato está
em jogo. Essa polarização procura legitimar (como se fosse alternativa
remotamente desejável) um projeto político absolutamente incompatível
com a evolução da frágil democracia brasileira. Por outro
lado, independente da avaliação que se faça do governo
Lula, qualquer tentativa de equiparar os dois candidatos é um irresponsável
endosso a Alckmin e seu grupo, que representam a materialização
de um retrocesso grave, talvez irreversível a médio prazo.
Não há meio-termo possível. Chegou o momento de sair
às ruas, em nome dos valores democráticos, para impedir o triunfo
do atraso e da obscuridade. Será mais difícil do que parece,
a julgar pela índole dos adversários.