Guilherme Scalzilli

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As vitórias de Lula

Enquanto prevalecia alguma certeza de que Lula seria reeleito já no primeiro turno, a oposição tentou garantir o enfraquecimento político da nova gestão. Esperava-se (e era desejo confesso de inúmeros analistas) que o PT obtivesse uma votação decepcionante em todas as instâncias. Governabilidade à parte, a derrocada petista representaria a desmoralização do presidente, cujo sucesso passou a ser ostensivamente condicionado pelo desempenho do partido. Entretanto, apesar de ter perdido cerca de 2 milhões de votos em relação a 2002, o PT foi novamente o partido mais votado para deputado federal, manteve sua bancada na Câmara e elegeu cinco governadores. A coligação governista está próxima da maioria absoluta na Casa e conquistou dezesseis Estados, inclusive o Ceará de Tasso Jereissati e a Bahia de ACM. A própria insistência em disseminar expectativas apressadas conferiu aos resultados a importância de uma vitória nacional.

Cristovam Buarque e Heloísa Helena basearam-se na condição de dissidentes da administração federal para aglutinar o eleitorado descontente. Mas o discurso monotemático do ex-ministro e a ferocidade moralista da senadora tiveram resultados ínfimos (frustrantes apenas para os ingênuos), revelando que uma alternativa progressista viável ainda está longe de estabelecer-se. A ênfase em equacionar a rejeição ao governo Lula pela performance dos dois candidatos só fez iluminar, por contraste, a popularidade do presidente, que atingia índices históricos.

Muitos precipitaram-se em festejar o segundo turno como derrota simbólica do governo, condenado a um desgaste prolongado, quiçá insuportável. Mais uma vez, a enorme ansiedade gerada pela mídia partidarizada provocou uma frustração equivalente. A continuidade da disputa mostrou-se favorável a Lula. Sua personalidade política foi reforçada pela exposição compulsória, conquistando um respaldo que não talvez dispusesse no início da disputa, especialmente junto à classe média. A campanha petista corrigiu os equívocos iniciais, adotou motes propagandísticos eficazes e ressuscitou a militância. O apelo plebiscitário da eleição voltou-se contra seus próprios incentivadores: submetido ao julgamento moral do eleitorado, Lula recebeu a soma inédita de 58 milhões de votos, onze milhões a mais do que no primeiro turno, cinco milhões a mais do que em 2002.

Geraldo Alckmin só chegou ao segundo turno porque a imprensa foi escandalosamente omissa diante de seu ruinoso governo paulista. Houvesse lisura na atuação dos grandes veículos jornalísticos, o ex-governador fugiria da vida pública, assombrado por processos administrativos, levando a vergonha de ter empossado um secretário de Segurança que patrocinou violações de direitos humanos dignas dos mais incivilizados rincões do país. O “fenômeno Alckmin” significou apenas uma péssima criação publicitária: afogado na própria artificialidade, o candidato transfigurou-se tanto que chegou ao cúmulo de adotar os principais itens da plataforma petista. Sua derrota, por 20 milhões de votos (além da façanha de perder seis por cento dos eleitores iniciais), soa mais vergonhosa devido aos estratagemas midiáticos utilizados para evitá-la.

A contragosto, Lula foi desalojado de seu acomodamento para enfrentar a arrogância dos adversários, os humores populares e os questionamentos pertinentes que tanto evitou. Atirado numa disputa planejada para servir de linchamento público, terminou justamente fortalecido e celebrizado por uma consagração eleitoral que jamais desfrutara. Eis a dimensão simbólica dessa conquista.

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