Guerra de mentiras
A imprensa paulista tem enorme responsabilidade pela onda de violência que assola o Estado. Encobriu sistematicamente uma antiga putrefação institucional e o conseqüente fiasco das políticas de segurança, impedindo a opinião pública de antever e talvez impedir a inevitável desmoralização das autoridades frente ao crime organizado. Depois, manipulando o pânico que ajudou a disseminar, fez com que a onda de arbitrariedades policiais parecesse justificável e fadada à impunidade.
Em São Paulo opera uma versão requintada de coronelismo, disfarçado por essa aura de prosperidade harmoniosa que advém da notória soberba local. Os mesmos grupos de interesse dominam a política estadual há quase trinta anos, através de um pacto de convivência que loteou o conservadorismo interiorano em sólidas bases regionais. O sucesso dessa longa primazia deve-se à proliferação de obras suntuosas, fontes permanentes de visibilidade, mas seria impensável sem uma rede de comunicação eficaz, composta por centenas de veículos, espalhados pelos mais variados rincões (inclusive nas grandes cidades). Criados, mantidos e até dirigidos por lideranças políticas, eles monopolizam anunciantes, destroem a concorrência e representam amiúde as únicas fontes de informação disponíveis para vastas parcelas populacionais.
Os exemplos dessa contaminação preencheriam calhamaços. Apenas nos últimos anos, a gestão Geraldo Alckmin direcionou fortunas para as redes Vida, Gospel e Canção Nova, as revistas Chán Tao, De Fato e Primeira Leitura (Luiz Carlos Mendonça de Barros), o jornal O Diário e as rádios Independente e Barretos AM, sempre em troca de cobertura favorável e apoio na Assembléia - não surpreende que setenta pedidos de CPI contra o governo tenham sido arquivados. Sob essa blindagem transcorreram incólumes os doze anos de reinado tucano, ocultando a vergonhosa Febem, a catástrofe no sistema carcerário, as obras suspeitas (Metrô, rio Tietê, Rodoanel), a penúria educacional, as fraudes na Nossa Caixa, as irregularidades nos Transportes e tantos compromissos eleitorais quebrados.
A couraça demagógica, quase desmascarada pelo PCC, ganhou reforço imediato. PCC? A desinformação é tamanha que ainda há dúvidas sobre a verdadeira origem dos ataques. E de que bandidos falamos? As forças policiais, unidas na barbárie vingativa, efetuaram prisões sem respaldo jurídico, torturaram a esmo, assassinaram dezenas de pessoas com múltiplos indícios de execução sumária, adulteraram provas e ocultaram cadáveres, mas a propaganda oficial trata-os como vítimas indefesas e expurga suas culpas, amenizando a violação de direitos como prerrogativa funcional dos “nossos heróis”. A secretaria de Segurança nega-se a prestar qualquer esclarecimento. O titular da pasta, Saulo de Castro Abreu Filho, que já foi acusado de organizar grupos de extermínio, desafia as instâncias democráticas, utilizando seus ridículos cacoetes autoritários para angariar respaldo (e votos) no seio do pior reacionarismo.
Em qualquer nação minimamente civilizada, seria um escândalo avassalador, que acarretaria o imediato afastamento dos envolvidos, do primeiro escalão administrativo ao comando das tropas. Se depender do jornalismo cúmplice, nada aconteceu e nada acontecerá em São Paulo, símbolo do orgulho nacional.
Nossa amarga estupefação arrefece, porém, quando lembramos que o escolhido para dar continuidade à tragédia paulista iniciou sua campanha justamente assim: com uma deslavada mentira.