O guardião do ninho
O futuro do PSDB depende das eleições para governo de São Paulo. Nenhum outro estado possui tamanho peso financeiro, simbólico e estratégico para o partido. A inegável relevância econômica e populacional de Minas Gerais, por exemplo, não diminui a enorme disparidade de valores. Além disso, o microcosmo político mineiro obedece a um sistema de influências próximo do populismo oligárquico nordestino, formado por agrupamentos de lideranças regionais, que priorizam demandas localizadas acima de abstrações programáticas. As lideranças peessedebistas identificam-se cada vez menos com as origens da sigla, que remontam a disputas no PMDB paulista. Fora de São Paulo, a fantasia institucional que amalgama os vetores do partido é quase irrelevante, e poucos de seus quadros lamentariam adotar outras nomenclaturas após um eventual rompimento na frágil harmonia da cúpula.
Há um fundamento prático nessa dependência estadual do PSDB. A gigantesca máquina administrativa de São Paulo abriga figuras importantes que foram desalojadas do governo federal e demais eleições derrotadas. É evidente que sistemas semelhantes funcionam em todos os rincões do país, porém jamais com a mesma grandiosidade. São várias centenas de cargos, espalhados por órgãos públicos, autarquias e fornecedores (para não citar a Assembléia Legislativa), garantindo sobrevida a uma constelação de notáveis e populações de correligionários comprometidos com as pretensões hegemônicas dos líderes. Um contingente decisivo nas disputas que movimentam as convenções partidárias.
Perder São Paulo, especialmente para o PT, significaria correr o risco de que um orçamento exorbitante seja enfim utilizado para amenizar os desastres perpetrados pelos doze anos de predomínio tucano. O sucesso alheio, mínimo que fosse, prolongaria o ostracismo dos peessedebistas históricos por um tempo que eles talvez não suportassem. A hipótese não parece tão absurda perante o grau de penúria a que foram relegadas áreas como Segurança Pública, Educação e Saúde no estado.
Outro fantasma terrível que assola o PSDB e coligados é o de algum sucessor raivoso expor os calabouços infectos das administrações anteriores. Não por acaso, a candidatura de José Serra atraiu o providencial apoio do ex-governador Luís Antônio Fleury Filho (massacre do Carandiru), Aloysio Nunes Ferreira (vice de Fleury), Alberto Goldman e Barros Munhoz (secretários, respectivamente, dos governos Orestes Quércia e Fleury). Essa tropa de choque recebeu ainda o reforço de deputados ultraconservadores e do indefectível PFL, que acaba de receber seu quinhão na capital e no Palácio dos Bandeirantes (Gilberto Kassab, o vice-prefeito que Serra empossou, foi da bancada de Paulo Maluf na Câmara e depois secretário do nefasto governo Celso Pitta).
Prova da seriedade com que os dirigentes tucanos e seus apoiadores da imprensa tratam a campanha de Serra pode ser aferida no zelo conferido à preservação de sua imagem, evitando qualquer menção desagradável à Máfia dos Sanguessugas (que surgiu quando Serra era ministro da Saúde), à lista de Furnas (onde ele consta como praticante de caixa dois), à quebra do compromisso público de não abandonar a Prefeitura ou aos malogros da gestão paulistana. A recente tentativa de associar o PT aos ataques do crime organizado é sintomática. Pois, se esse manto de otimismo e serenidade consegue ocultar a conhecida truculência do candidato, não ameniza a desesperada agressividade de quem está disposto a tudo para garantir a própria sobrevivência. Tudo mesmo.