Reta final
A longa e torturante imolação do governo Lula chega ao estágio decisivo. Agora, pelo menos, a campanha difamatória visando impedir sua reeleição dispensa máscaras oportunistas: a disputa eleitoral escancarará o vale-tudo dissimulado nos últimos três anos. E o terreno ideológico onde transcorrerá a batalha sucessória foi habilmente preparado para esta nova fase.
À medida que o governo fortaleceu-se junto ao eleitorado de baixa renda, a oposição canalizou esforços para arregimentar a chamada classe média, segmento populacional mais articulado, embora menos numeroso. A estratégia visava aproveitar os consumidores regulares dos grandes veículos de informação para criar focos de descontentamento numa parcela social com poder aquisitivo e heterogeneidade que facilitam a disseminação de notícias, opiniões e rumores. Sabendo utilizar vocabulário e simbologia sedutores a seu público-alvo (desmoralização pessoal do presidente, desqualificação do governo, aviltamento da esfera política), a propaganda depreciativa impregnou-o com uma solidez consensual.
Aliciar a classe média significa minar os ânimos da militância petista e da base eleitoral dos partidos aliados. Isolar Lula dentro do PT e este no âmbito governista desmobiliza comitês, inviabiliza projetos do final de mandato e enfraquece uma coligação de abrangência nacional que unifique os discursos favoráveis à administração. Considerando que o fim da verticalização é uma realidade prática, independente de sua oficialização, tal isolamento tende a agravar-se. Sem um amálgama de compromissos partidários, os candidatos locais moldariam seus discursos em função das conjunturas regionais e dos humores do eleitorado arisco. O governo federal, consequentemente, receberia ataques de todos os lados.
Nada garante, porém, que as artimanhas oposicionistas terão êxito. Quem afirma que Lula perdeu o favoritismo propaga uma mentira frágil, cujo intento é influenciar pesquisas. Além de contar com a máquina administrativa, o presidente ainda dispõe de enorme popularidade. Sua campanha exibirá avanços econômicos e sociais de forte apelo eleitoral (sim, eles existem), principalmente nas inevitáveis comparações com os anos FHC. Chamuscados pela crise que ajudaram a fomentar, PSDB e PFL não dispõem de um candidato forte, por mais que seus porta-vozes propaguem o contrário. Tamanha é a dificuldade de alavancar o anti-Lula tucano, que soa plausível o surgimento de uma segunda candidatura de centro-direita, levando à divisão do voto oposicionista e eventualmente facilitando a vitória petista já no primeiro turno.
As eleições representam a culminação de uma vasta conjugação de forças empenhada em aniquilar um projeto político que, mal ou bem, 53 milhões de brasileiros escolheram. Objetivo dessa envergadura não tolera a menor perspectiva de fracasso. Humilhada em 2002 e consciente das próprias fragilidades, a oposição apelará para estratagemas previsivelmente abjetos, dos quais a manipulação de pesquisas será exemplo comezinho. O recrutamento de setores da classe média para a formação de uma militância com fortes inclinações anti-democráticas, disfarçadas pelo discurso da moralização, representa o primeiro passo rumo à polarização do eleitorado entre os “pobres e menos informados” e os “iluminados libertadores do povo”. O último embate desse tipo, há quarenta e dois anos, resultou em tragédia.