A democracia dos outros

As reações ao cancelamento da concessão da RCTV ilustram a ambigüidade moral da imprensa hegemônica brasileira. É reflexo do farisaísmo ético de seu público-alvo, que exige a honestidade alheia mas contribui cotidianamente para a gênese e a sobrevivência da corrupção. Na seara política, essa verborragia hipócrita realça o caráter despótico dos adversários, legitimando o recurso a medidas de exceção contra eles e afirmando os pendores liberais de seus detratores. Qualquer demagogo autoritário, desde que inimigo de Hugo Chávez, vira porta-voz das liberdades cívicas.

Abstrações ideológicas à parte, a decisão do governo venezuelano teve respaldo jurídico. Observou uma doutrina similar à existente em todas as democracias do planeta, segundo a qual o Poder Público tem soberania sobre a gestão do espectro de freqüência utilizado para transmissões de TV, rádio e telefonia. Há critérios tangíveis para a renovação das concessões. A desobediência de classificações etárias e a transmissão de material ilícito ou ofensivo são motivos suficientes, amiúde utilizados, para “fechar” emissoras. Todas invocam uma discutível liberdade de expressão, mas apenas a venezuelana tem a pachorra de defender seu direito “democrático” de patrocinar um golpe de Estado e festejar saltimbancos.

Não por acaso, os veículos que hoje se solidarizam com a RCTV aplaudiram os militares em 1964. Os defensores da pluralidade informativa são inimigos violentos das rádios comunitárias, querem policiar a internet, barganham apoio parlamentar em troca de licenças para transmissoras locais e manipulam o noticiário quando conveniente a seus patronos políticos. São heróis do monopólio midiático, unidos no temor de que a sociedade brasileira descubra a fragilidade das concessões vigentes e passe a questioná-las.

As ditaduras estão cheias de democratas como esses.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos