A ética dos outros
O falso moralismo é a seita pequeno-burguesa por excelência. Valores maleáveis, o pendor à autocomiseração e o caráter permeável a tentações mundanas proporcionam campo fértil para a proliferação dessa patologia comportamental baseada em hipocrisia, rancor e oportunismo.
O moralista peçonhento ignora a legislação cotidianamente: sonega impostos, financia o contrabando e a pirataria, comete pequenos furtos e infrações de trânsito, lesa funcionários e clientes, corrobora o trabalho infantil e a pedofilia, suborna autoridades, deleita-se com a prostituição e o jogo ilegal. Enquanto isso, redimido pela escolaridade e pelo status profissional, brada horrores contra os governantes corruptos que o espelham. E impunes permanecem todos.
O jornalismo oposicionista abraçou uma esquizofrenia de pregação religiosa adequada ao seu público-alvo. Os escândalos são obras do coisa-ruim barbudo, que a sociedade letrada purga com sacolejos e esgares, exorcizada pelo denuncismo histérico. Engasgado em bravatas, o fanatismo de conveniência fornece suporte emocional a veleidades autoritárias. A corrupção justificou todos os golpes da história republicana, mas sobreviveu a eles porque não passou de pretexto para derrubar adversários. Agradável no discurso, a moralidade é pimenta restrita aos olhos dos desafetos. Sempre que algum lunático ameaça tomar a plataforma legalista ao pé da letra, os espertos puxam-lhe o tapete, em nome das liberdades democráticas.
A febre ética é pura demagogia, uma fachada para a agenda obstrucionista de políticos e jornalistas que até 2002 tratavam a safadeza como acidente do poder. A burguesia atuante, majoritariamente contraventora, fisgada pela consciência dolorida e embriagada de “irritado elitismo antiplebeu” (Eric Hobsbawn), aproveita para vingar-se do populacho impertinente que lhe escapou ao controle.