Guilherme Scalzilli

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A indignação entorpecente

O Congresso Nacional merece a má reputação que desfruta junto ao eleitorado. As Casas exibem um espetáculo surreal, insolentemente escancarado, no qual homens e mulheres ridículos barganham verbas públicas em completo desacordo com os interesses populares. Representam o supra-sumo da elite privilegiada, insensível e egoísta, desfrutando os prazeres de uma existência remota, protegida nos inacessíveis confins goianos. Não surpreendem, portanto, as reações uníssonas contra o aumento salarial dos parlamentares, tendo em vista as benesses vigentes, o índice do reajuste, os valores resultantes e o peso da aplicação em cascata a todas as instâncias do Legislativo.

Mas as unanimidades, ainda que legítimas, não estão imunes ao questionamento. Qual seria o salário justo para um deputado ideal, que cumprisse plenamente seus compromissos? Embora absurdamente acima da realidade do trabalhador brasileiro médio, uma remuneração de vinte e cinco mil reais insere-se num padrão razoável para cargos de diretoria em grandes empresas, e não é estapafúrdia entre advogados, empresários, médicos ou publicitários bem-sucedidos. A relevância social da atividade legislativa bastaria para justificar um rendimento condizente, no mínimo equiparado ao dos ministros de Tribunais Federais, que sequer possuem representatividade popular.

Dizer que o veto ao aumento preservaria o dinheiro público é demonstração de ignorância quanto ao montante e à natureza da verdadeira corrupção. Quem defende que parlamentares deveriam trabalhar de graça, ou quase, além do evidente absurdo da proposição, desconsidera a possibilidade teórica de um representante não possuir renda suficiente para dedicar-se exclusivamente ao mandato.

Parece óbvio que o problema não se resume ao mérito, ou seja, ao salário cabível a um congressista hipotético, mas quanto esses congressistas específicos devem receber. Depois de tratar as eleições proporcionais com desinteresse e irresponsabilidade, a nação revolta-se quando suas criaturas exercem as prerrogativas do cargo. Em vez de exigir que os parlamentares sejam dignos dos rendimentos e benefícios, escolhe-se o caminho fácil da depreciação punitiva – processo semelhante à desmoralização sofrida pelo funcionalismo público nas últimas décadas. É mais cômodo (e infrutífero) condenar genericamente as instituições do que trabalhar pelo seu aprimoramento.

Sintomático que a aversão ao Legislativo seja acompanhada pela consagração de certos parlamentares, membros do que a imprensa subserviente trata pela sugestiva alcunha “grupo dos trinta” (talvez para evitar referências à turma de Ali Babá). Em plena gritaria contra o aumento para congressistas, eles espertamente silenciaram sobre o Projeto de Lei 7297/06, que eleva o salário do Judiciário a níveis equivalentes. Alguns tiveram participação (e palanque) nas CPIs contra o governo Lula, patéticos festivais de acusações infundadas e omissões constrangedoras. Superados pela hábil articulação política do Planalto, forjaram uma anticandidatura à presidência da Câmara, como se a “terceira via” representasse alternativa ética às disponíveis e não apenas uma tentativa de desgastar o governo. Abnegados e transparentes, não admitiram revelar seus votos no pleito que elegeu Severino Cavalcanti em 2005; aliás, não revelam coisa alguma.

Embalada pelo discurso moral dos oportunistas e pelo cinismo da imprensa que lhes serve de tribuna, a fúria coletiva purga frustrações e repousa satisfeita. A sociedade crédula gasta sua munição rarefeita em alvos falsos ou irrisórios, grata por escapar dos assuntos incômodos, enquanto brinca de democracia representativa. Frustradas as expectativas (como sempre), tudo permanece na mesma, para júbilo dos espertos.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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