Morte na escola
Quando jovens bem-alimentados fuzilam conterrâneos em pacatos rincões do Primeiro Mundo, o mercado de armas, a cultura da violência e a desagregação familiar surgem como causas incontestáveis do crime. Resta, porém, uma questão incômoda: por que tantas dessas tragédias ocorrem em estabelecimentos de ensino? Rememorando a longínqua adolescência, esboço uma interpretação particular para o fenômeno.
Estudei uma década na Escola Comunitária de Campinas (SP), fundada por pais e professores imbuídos do espírito contestador e libertário que floresceu no final da ditadura. Apesar da excelência dos empreendedores, nem todas as inovações pedagógicas adotadas resultaram positivas. O método subjetivo de avaliação (sem números, baseado no juízo imponderável do professor) favorecia injustiças, podendo disfarçar punições disciplinares e rixas pessoais. O fantasma da repetência ameaçava permanentemente quem ousasse constranger ou desafiar a diretoria.
Polemista impertinente, organizador de protestos, presidente de grêmio e responsável por inúmeras estripulias, estive entre as vítimas desse mecanismo coercitivo. A hipocrisia e o espírito revanchista que pareceram motivar minha reprovação, no segundo colegial, abalaram-me brutalmente. Expelido de uma classe unida e antiga, condenado ao desperdício de todo um ano letivo, saí enfurecido, jurando vinganças inconfessáveis. Por pouco, felizmente, não as concretizei; mas aprendi que um jovem amargurado é capaz de tudo.
Há evidências cotidianas de que insensibilidade, autoritarismo e intolerância não constroem apenas cidadãos competitivos e disciplinados. Vandalismo, trotes estúpidos e outras violências repudiáveis espelham valores cujos rudimentos desenvolvem-se no próprio ambiente escolar. O aluno mentecapto descarrega suas frustrações sobre o único microcosmo social em que elas fazem algum sentido.