O lobby antimaconha – 2
A hipocrisia e a mistificação atravancam o debate sobre a descriminalização da maconha. Defensores de interesses econômicos, corporativos e políticos, tratados como especialistas, transformaram-se em porta-vozes inquestionáveis do modelo repressivo.
A indústria farmacêutica perderá fortunas quando as possibilidades terapêuticas da Cannabis forem exploradas. A maconha é facilmente cultivável, o que inviabilizaria sua apropriação comercial pelos laboratórios. A simples menção ao aspecto medicinal causaria tamanho estrago nos argumentos contrários à legalização, que o setor precisou esconder-se, apelando para a intermediação de congressistas e médicos.
Mas os profissionais da saúde também têm seus motivos. O proibicionismo garante a luxuosa sobrevivência de muitos psiquiatras e psicólogos, esses astros da terapia adolescente que freqüentam programas televisivos. Fazendo propaganda velada dos próprios serviços, eles declamam um alarmismo pseudotécnico, omitindo as especificidades das substâncias proibidas para que soem igualmente ameaçadoras. Semelhante deturpação fundamenta a postura de certos criminalistas, policiais e religiosos, ávidos por preservar a autoridade e os rendimentos (nem sempre confessáveis) oriundos da demonização da planta.
O cimento ideológico
da estupidez repressiva vem do conservadorismo tacanho que infecta a grande
imprensa nacional. Os fundamentalistas do atraso rejeitam a tendência
mundial pela descriminalização, pois temem que seu notório
sucesso comprometa a estrutura de dogmas tradicionais da direita. Associar
o consumo da maconha ao crime organizado ajuda a manter coeso um repertório
amplo de valores deturpados, que abrangem direitos humanos, aborto e outros
temas. O rigor científico e a sensatez derrubariam esse castelo de
bobagens, como cartas de um baralho gasto.